A indústria siderúrgica brasileira enfrenta um cenário de capacidade produtiva elevada, mas utilização muito abaixo do nível considerado necessário para sustentar novos investimentos. Durante o Congresso Aço Brasil 2026, realizado em São Paulo, o empresário André Gerdau alertou para uma transformação no comércio internacional e colocou a competitividade do Brasil no centro da discussão.
Segundo Gerdau, o parque siderúrgico brasileiro possui capacidade instalada para produzir 51 milhões de toneladas de aço por ano, enquanto a produção atual está próxima de 33 milhões de toneladas. Com isso, as usinas trabalham com utilização estimada entre 60% e 65% da capacidade.
O empresário afirmou que o setor precisaria operar acima de 80% para atingir um nível capaz de remunerar o capital, distribuir dividendos e manter investimentos.
Siderurgia brasileira enfrenta mercado interno abaixo do potencial
Outro indicador apresentado durante o evento foi o consumo aparente de produtos laminados. De acordo com Gerdau, o mercado brasileiro absorve atualmente entre 25 milhões e 26 milhões de toneladas por ano.
O volume máximo citado pelo empresário foi de 27 milhões de toneladas, registrado em 2013. Depois disso, o consumo teria recuado para aproximadamente 18 milhões de toneladas antes de voltar a crescer. Mesmo com a recuperação, o mercado ainda permanece próximo dos níveis observados há cerca de uma década.
Esse comportamento ajuda a explicar parte da ociosidade das usinas. Mesmo existindo estrutura para uma produção maior, a demanda doméstica não acompanha integralmente a capacidade instalada.
Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta a concorrência de produtos estrangeiros. Em 2025, as importações diretas de aço chegaram a 5,7 milhões de toneladas, representando aproximadamente 22% do consumo nacional, segundo os dados apresentados por Gerdau.
Para 2026, a expectativa citada pelo empresário é de que a participação dos produtos importados fique entre 18% e 18,5%. Embora represente uma redução, o percentual ainda estaria acima da média histórica de 9% a 10% registrada entre 2000 e 2019.
Importações indiretas ampliam pressão sobre o aço nacional
Gerdau também chamou atenção para um fluxo que não aparece apenas nas estatísticas tradicionais de importação de aço: o metal que chega ao Brasil incorporado a produtos fabricados no exterior.
Nesse grupo estão veículos, máquinas, equipamentos, eletrodomésticos, implementos agrícolas e tratores. Dessa forma, segundo a avaliação apresentada no congresso, analisar somente a entrada direta de aço estrangeiro não mostraria toda a dimensão da concorrência enfrentada pela indústria nacional.
Somando os dois fluxos, direto e indireto, o empresário estima que aproximadamente um terço do aço consumido no Brasil tenha origem externa.
As medidas de defesa comercial adotadas pelo governo foram reconhecidas por Gerdau como um dos fatores que contribuíram para a redução das importações. Ainda assim, ele considera que a participação estrangeira continua elevada.
O empresário também afirmou que o objetivo da indústria não é impedir a entrada de produtos estrangeiros no país, mas buscar condições semelhantes de concorrência.


