A mineração brasileira precisa ampliar o acesso ao capital privado para transformar o potencial do setor em novos projetos, processamento e desenvolvimento industrial. A avaliação foi apresentada por Joaquim Levy, diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados do Banco Safra, durante o Invest Mining 2026, em painel sobre as oportunidades da mineração para o Brasil.
Para Levy, o setor ganhou importância diante de mudanças que envolvem a transição energética, a soberania nacional e a reorganização das cadeias globais de suprimentos. O desafio, segundo ele, é transformar esses fatores em investimentos concretos, com avanços simultâneos nas áreas jurídica, regulatória e institucional.
“Mineração é um setor muito estratégico, está presente na sociedade, e tratado como um vilão”, afirmou.
O executivo também chamou atenção para a dimensão geopolítica dos minerais estratégicos. Segundo ele, há poucos anos as terras raras ainda eram um tema restrito a determinados setores, mas passaram a ocupar espaço relevante nas discussões econômicas e internacionais.
Nesse cenário, o Brasil disputa capital com outros países. Para Levy, a capacidade de atrair investimentos se tornou ainda mais importante diante das transformações no mercado financeiro internacional e da crescente relevância dos recursos minerais para diferentes cadeias produtivas.
O executivo também abordou o cenário econômico global, destacando os efeitos da situação fiscal e monetária dos Estados Unidos sobre os mercados. Na avaliação apresentada no evento, um cenário de juros elevados e pressão sobre as contas públicas americanas pode contribuir para a manutenção de um dólar valorizado, com impactos sobre países emergentes.
No Brasil, Levy afirmou que a inflação ainda converge de forma gradual e que fatores externos, como os efeitos de conflitos sobre os preços do petróleo, continuam relevantes. Ao mesmo tempo, contestou a avaliação de que a economia brasileira seja sustentada exclusivamente pelo consumo e pelos gastos públicos.
Segundo ele, as exportações vêm crescendo em ritmo superior ao consumo, o que demonstra a capacidade de expansão da economia e representa um aspecto importante para investidores estrangeiros.
Mineração busca alternativas ao crédito direcionado
A estrutura de financiamento do setor mineral também passou por mudanças. Levy destacou que o crédito direcionado do BNDES perdeu espaço em relação ao que representava há cerca de 15 anos, reduzindo a possibilidade de expansão desse modelo de financiamento público.
“Todo mundo vai enfrentar a lei do mercado, seja olhando para o exterior ou para os recursos domésticos. Por isso, a queda dos juros é indispensável para que a economia continue rodando, e há uma força que empurra a política monetária brasileira para um patamar mais próximo do padrão mundial”, avaliou.
Na visão do executivo, o ambiente fiscal brasileiro precisa continuar avançando, embora apresente uma situação semelhante à observada em outras economias. Para ele, o ajuste deve ocorrer de forma gradual, seguindo o que já está estabelecido na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e no Orçamento.
A avaliação de Levy é que a mineração pode se beneficiar desse processo caso consiga ampliar sua conexão com o mercado de capitais e outras fontes privadas de financiamento.
Ele também apontou avanços no ambiente institucional do setor mineral ao longo da última década. Segundo Levy, mudanças regulatórias e de organização contribuíram para ampliar a segurança jurídica e demonstram um processo de amadurecimento da atividade.
“O Plano Nacional de Mineração (PNM) até 2050 dá uma medida da ambição do setor, ao tratar da expectativa de crescimento, da participação da mineração no PIB, da capacidade de investimento em tecnologia e da ampliação da presença em minerais críticos e estratégicos”.
Capital privado pode acelerar minerais críticos
Para Levy, o diálogo entre governo, empresas e Congresso será importante para criar condições favoráveis ao avanço da mineração brasileira. O equilíbrio entre os diferentes agentes, segundo ele, pode contribuir tanto para ampliar a extração quanto para desenvolver etapas de processamento dentro do país.
“Para quem vem do mundo do capital, chegar numa casa arrumada é algo extraordinário”, disse.
O executivo encerrou sua participação destacando a evolução do setor nos últimos anos e os esforços realizados por empresas, governo e Congresso para consolidar uma estrutura institucional mais sólida.
Na avaliação apresentada no painel, o fortalecimento do capital privado pode ser decisivo para ampliar os investimentos na indústria mineral e permitir que o crescimento da atividade alcance outras áreas da economia.
“Tenho a convicção de que o país está próximo de superar a questão fiscal, como já superou os problemas da inflação e da dívida externa. Quanto mais o setor puder contar com capital privado, mais a indústria mineral poderá crescer e distribuir seus benefícios para a população”, concluiu.
Crédito: Agência Mineral Brasil


