O Brasil já possui reservas de minerais críticos, mas ainda precisa avançar em crédito, garantias e previsibilidade para transformar esse potencial geológico em indústria. Essa foi uma das principais conclusões do painel do Invest Mining 2026 dedicado ao financiamento público e privado do setor mineral, que reuniu representantes do BNDES e do BID Invest.
José Gordon, do BNDES, afirmou que o Brasil está diante de uma oportunidade em um momento de busca global por alternativas à dependência da China. Segundo ele, porém, o desenvolvimento da cadeia precisa começar pela lavra e pelo beneficiamento antes de avançar para etapas mais sofisticadas, como a fabricação de células de baterias.
O executivo destacou ainda que boa parte dos projetos de minerais críticos está nas mãos de junior companies, empresas menores que enfrentam dificuldades para estruturar financiamento e apresentar garantias.
Juan Paródi, do BID Invest, apontou cinco desafios para esses empreendimentos: risco geológico e tecnológico, previsibilidade do licenciamento, infraestrutura de energia, portos e rodovias, comercialização e capacidade dos patrocinadores de aportar recursos adicionais diante de imprevistos.
“Nas terras raras, até a formação de preço ainda é incerta. A solução exige governo, instituições privadas e organismos multilaterais agindo de forma coordenada”, disse.
Minerais críticos enfrentam gargalo de garantias e estrutura financeira
Questionado sobre o apoio a projetos que ainda não possuem fluxo de caixa, Gordon apresentou as linhas disponíveis no BNDES. A linha voltada à inovação permite liberar até R$ 300 milhões por ano, com juros de 2% ao ano. Já o programa Brasil Soberano, que prioriza minerais críticos, oferece R$ 500 milhões a uma taxa anual de 3%.
O Fundo Clima acrescenta outros R$ 500 milhões, com juros de 6,5%. Somadas, as linhas podem alcançar R$ 1,3 bilhão por empresa, além de uma modalidade em dólar. O banco também pode atuar por meio da BNDESPar, com investimentos diretamente no capital das companhias.
Apesar da disponibilidade de recursos, o principal gargalo apontado por Gordon são as garantias. Para enfrentar essa dificuldade, o projeto de lei dos minerais críticos criou um fundo garantidor, que ainda está em processo de estruturação junto à Casa Civil.
Para Paródi, a atuação de bancos de desenvolvimento pode justamente reduzir parte dos riscos associados a projetos de longo prazo. Segundo ele, empreendimentos com duração de 10 a 15 anos precisam de mecanismos capazes de absorver riscos de construção e de comercialização para estimular a entrada de investidores privados.
Os representantes também destacaram critérios socioambientais como parte da estruturação dos projetos. O BNDES criou uma política específica para o setor, enquanto o BID Invest considera, entre outros fatores, a viabilidade financeira, a sustentabilidade e o impacto no desenvolvimento.
Os projetos avaliados pelo BID Invest devem seguir padrões internacionais relacionados a temas como água, biodiversidade e povos indígenas. Para Paródi, os benefícios da atividade precisam chegar às comunidades envolvidas.
A experiência das energias renováveis também foi citada por Gordon como referência para a construção de uma cadeia nacional. Segundo ele, políticas anteriores permitiram o financiamento de projetos solares sem exigência de conteúdo nacional, enquanto a política voltada à cadeia eólica havia fortalecido a produção local.
Agora, o leilão de baterias já prevê participação nacional crescente, criando demanda para estimular a agregação de valor no país.
BNDES defende transformação mineral dentro do Brasil
Outro ponto destacado no painel foi a abertura do Brasil para investimentos estrangeiros. Gordon afirmou que o país está disposto a receber capital da Austrália, Japão, Estados Unidos, União Europeia e outros mercados, desde que parte da transformação dos minerais ocorra em território brasileiro.
A estratégia, segundo ele, não significa concentrar o financiamento exclusivamente no BNDES. A participação de instituições privadas e organismos multilaterais também é considerada necessária para viabilizar projetos de longo prazo.
Paródi defendeu uma mudança na forma como os minerais críticos são tratados na economia brasileira. Para o executivo, esses recursos não devem ser vistos apenas como commodities, mas como parte de uma oportunidade de desenvolvimento industrial em um cenário de reorganização das cadeias globais.
“Em um momento geopolítico delicado, o redesenho global abre espaço para gerar riqueza, emprego e renda além do setor mineral”.
O debate mostrou que o avanço dos projetos de minerais críticos depende não apenas da existência das reservas, mas também da capacidade de financiar a exploração, reduzir riscos, garantir infraestrutura e criar condições para que etapas de beneficiamento e transformação ocorram no país.
Crédito: Agência Minera Brasil


