PL do Licenciamento Ambiental: AMIG Brasil denuncia risco de retrocesso e cobra revisão urgente

Publicado em

A proposta que trata da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, identificada como Projeto de Lei 2159/2021, está prestes a ser novamente debatida na Câmara dos Deputados. Aprovado no Senado em 21 de maio, o texto será votado nesta quarta-feira (16), após alterações promovidas pelos senadores. O retorno da matéria ao plenário reacendeu o alerta da Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (AMIG Brasil), que divulgou um manifesto público contra o conteúdo aprovado.

Para a entidade, apesar da necessidade reconhecida de atualização nas normas ambientais, o projeto atual enfraquece os mecanismos de fiscalização, promove a concentração de decisões e, sobretudo, desconsidera lições fundamentais extraídas de tragédias recentes como as de Mariana (2015) e Brumadinho (2019).

Modelo atual do Licenciamento Ambiental prioriza agilidade, mas desprotege territórios mineradores

Entre os pontos considerados mais preocupantes pela AMIG Brasil, cinco merecem atenção especial no Licenciamento Ambiental:

  1. Autolicenciamento perigoso – A Licença por Adesão e Compromisso (LAC) permite que empresas iniciem operações com base apenas em declarações próprias, sem avaliações técnicas independentes. Isso poderia abrir brechas para que atividades de alto risco escapem de controle efetivo.

  2. Prazos curtos, impactos longos – A chamada Licença Ambiental Especial (LAE), voltada para projetos considerados “prioritários”, estabelece um trâmite acelerado, com limite de até 12 meses. A associação critica a possível influência política nessa definição e a dificuldade de atribuir responsabilidade em casos de falhas.

  3. Órgãos enfraquecidos – A proposta reduz a atuação de entidades como o CONAMA e repassa tarefas a órgãos que, segundo a AMIG, muitas vezes não têm preparo técnico ou estrutura para garantir avaliações criteriosas, criando um ambiente propício à competição entre regiões baseada na leniência ambiental.

  4. Impactos indiretos ignorados – O novo texto desconsidera os efeitos cumulativos da mineração, como desmatamento e contaminação de cursos d’água, ao excluir a obrigatoriedade de análise de áreas de influência indireta nos estudos de impacto.

  5. Mudanças climáticas deixadas de lado – Em pleno avanço dos eventos climáticos extremos, a proposta é omissa quanto à exigência de análises sobre riscos ambientais relacionados ao clima, o que preocupa especialmente municípios mineradores, frequentemente afetados por enchentes, secas e escassez hídrica.

Entidade cobra ajustes e responsabilização clara

Para a AMIG Brasil, o texto atual do Licenciamento Ambiental representa um modelo de “irresponsabilidade organizada” — conceito cunhado pelo sociólogo Ulrich Beck — onde os riscos são reconhecidos, mas as responsabilidades são diluídas ou evitadas. A entidade considera inaceitável que um país com o histórico recente de tragédias ambientais siga promovendo flexibilizações sem garantir rigor técnico e responsabilização concreta.

No documento, a associação apresenta 10 propostas de emenda, incluindo:

  • Responsabilidade solidária entre empresas, gestores e técnicos;

  • Tipificação penal para declarações falsas;

  • Reforço à atuação dos órgãos fiscalizadores;

  • Inclusão obrigatória de análises climáticas;

  • Garantias específicas para cidades impactadas por mineração.

Debate precisa ser técnico e centrado nas comunidades

A AMIG Brasil reforça que o desenvolvimento sustentável passa por regras claras, fiscalização fortalecida e políticas que levem em consideração as realidades locais. Segundo a entidade, flexibilizar sem critérios objetivos é permitir que novas tragédias aconteçam sem que ninguém possa ser responsabilizado.

“Não somos contra o avanço da legislação, mas exigimos que ela seja construída com base em conhecimento técnico, justiça ambiental e respeito às comunidades atingidas pela mineração. O Brasil não pode errar novamente”, finaliza o manifesto.

Matérias Relacionadas

Brasil lidera acordo na ONU para combater crimes ambientais e mira tráfico de minerais e ouro

Brasil avança na ONU para criar protocolo contra crimes ambientais, incluindo extração e tráfico ilegal de minerais, metais preciosos e resíduos

BHP investe até US$ 40 milhões em novo projeto de cobre no Chile próximo à Escondida

BHP e Codelco avançam no projeto Anillo, no Chile, com até US$ 40 milhões para estudar uma área de 24 mil hectares próxima à mina Escondida

Ex-Governador do MT é alvo de denúncia do MPF que cita 589 kg de mercúrio para garimpos

Mauro Mendes é denunciado por suposto esquema de mercúrio que teria movimentado R$ 747,5 milhões em ouro

Passada a eleição, quem negocia o subsolo agora precisa dizer como

Poucas palavras atravessaram esta campanha presidencial com tanta força quanto soberania. Ela esteve nos planos de governo, nos debates, nas redes sociais e, de um modo que seria difícil imaginar há alguns anos, chegou ao subsolo

últimas Matérias

Minério de ferro, petróleo e gás natural impulsionam economia do Espírito Santo

Espírito Santo lidera o crescimento industrial brasileiro com alta de 17,7% até agosto de 2026, impulsionado por petróleo, gás natural e minério de ferro

Reino Unido mira minerais estratégicos do Brasil e reforça parceria em ciência e tecnologia

Reino Unido destaca os minerais estratégicos do Brasil como prioridade e sinaliza interesse em ampliar parcerias em ciência, tecnologia e inovação

Maior influencer da mineração reúne 350 amigos no 5º Encontrão do Tchê

Jefferson Agostinelli, o Fala Tchê, reúne cerca de 350 empresários e profissionais no 5º Encontrão do Tchê, com forte presença da mineração

Lei do deputado mineiro Zé Silva abre caminho para o Brasil transformar riqueza mineral em indústria, e Minas pode sair na frente

Nova Política Nacional de Minerais Críticos, de autoria do deputado mineiro, retoma um sonho mais que centenário, nascido em Itabira, e cria pela primeira vez uma política de Estado para que o país agregue valor ao que extrai