Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, mudou para sempre a história do município, da bacia do Rio Doce e da mineração brasileira. Onze anos depois, a data ainda é marcada pela memória das 19 vidas perdidas, pelas comunidades atingidas e pelos impactos ambientais que ultrapassaram as fronteiras de Minas Gerais e chegaram ao litoral do Espírito Santo.
A lama percorreu aproximadamente 663 quilômetros até alcançar o mar, atingindo cursos d’água, comunidades, atividades econômicas e ecossistemas ao longo do caminho. O desastre, provocado pelo rompimento da estrutura operada pela Samarco, joint venture da Vale e da BHP, tornou-se um marco na discussão sobre segurança de barragens, responsabilidade empresarial e os limites da atividade mineral.
Mais de uma década depois, Mariana vive um período de transformações. A reparação segue em andamento, os novos distritos avançaram em sua construção e a Samarco retomou gradualmente suas operações. A empresa trabalha atualmente com cerca de 60% de sua capacidade produtiva e prevê investimentos de R$ 13,8 bilhões para avançar rumo à produção integral, projetada para 2028.
O cenário, porém, não representa o encerramento de um capítulo. A reconstrução das comunidades, a recuperação ambiental e a retomada econômica caminham em ritmos diferentes. Para Mariana, o desafio é transformar a atividade mineral em desenvolvimento duradouro, sem deixar que o crescimento econômico apague a memória do que aconteceu.
CFEM mostra o peso da mineração na economia de Mariana
A importância da mineração para a economia de Mariana também pode ser observada pela arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), os royalties pagos pelas empresas mineradoras em razão da exploração dos recursos minerais.
Os números mostram como a arrecadação associada à atividade mineral no município variou ao longo dos últimos anos. Em 2015, ano do rompimento de Fundão, Mariana registrou R$ 104,4 milhões. Em 2016, o valor caiu para R$ 76,3 milhões e, em 2017, chegou a R$ 65,8 milhões.
A partir de 2018, a arrecadação voltou a crescer, alcançando R$ 106,1 milhões. Em 2019, recuou para R$ 75,5 milhões. Nos anos seguintes, acompanhou a valorização das commodities minerais e as mudanças no ritmo da atividade: foram R$ 178 milhões em 2020 e R$ 398,3 milhões em 2021, o maior valor da série apresentada.
Em 2022, a arrecadação somou R$ 299 milhões. Em 2023, ficou em aproximadamente R$ 260,1 milhões e, em 2024, chegou a R$ 266,3 milhões. Já em 2025, os dados disponíveis até agosto apontavam R$ 181,2 milhões.
A sequência evidencia a dimensão econômica da mineração para Mariana, mas também mostra que a receita mineral está sujeita a oscilações de produção, preços e mercado. O valor de 2021, por exemplo, foi impulsionado pelo contexto excepcional de valorização das commodities, não representando necessariamente um patamar permanente de arrecadação.
É importante diferenciar a arrecadação da CFEM da distribuição dos royalties. A primeira corresponde aos valores recolhidos pelas empresas à Agência Nacional de Mineração (ANM) em função da exploração mineral. A segunda representa a parcela posteriormente transferida aos municípios, estados e à União, conforme os critérios legais. Portanto, os valores arrecadados em Mariana não correspondem automaticamente ao montante que entrou nos cofres da Prefeitura.
A evolução da CFEM ajuda a dimensionar o peso da mineração na economia local, mas também reforça a importância de planejar o uso desses recursos. Por se tratar de uma receita vinculada a uma atividade baseada em recursos naturais não renováveis, a conversão dos royalties em infraestrutura, serviços públicos, diversificação econômica e oportunidades para a população é um dos desafios para o futuro do município.
Samarco avança na retomada enquanto reparação continua
A retomada da Samarco é um dos principais elementos da nova etapa econômica de Mariana. Depois de permanecer mais de cinco anos sem produzir, a empresa reiniciou suas operações em dezembro de 2020 e vem ampliando gradualmente sua capacidade. A meta é alcançar 100% em 2028, com investimentos previstos de R$ 13,8 bilhões.
A companhia também apresenta mudanças em seu modelo operacional, com a proposta de operar sem utilizar barragens de rejeitos e ampliar o empilhamento a seco. A estratégia integra o plano de retomada e busca reduzir a dependência de estruturas convencionais de disposição de rejeitos.
O retorno da produção tem efeitos sobre a cadeia de fornecedores, o mercado de trabalho, a arrecadação e a circulação de recursos na região. Ao mesmo tempo, a experiência dos últimos 11 anos mostra que a retomada da mineração precisa ser acompanhada por transparência, fiscalização e compromisso permanente com a segurança e o meio ambiente.
Na frente da reparação, o Novo Acordo do Rio Doce, homologado pelo Supremo Tribunal Federal em novembro de 2024, estabeleceu um pacote de R$ 170 bilhões para medidas de compensação e recuperação. O acordo envolve a União, os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo, instituições de Justiça, a Samarco e suas acionistas.
Segundo dados divulgados pela Samarco, até setembro de 2026, 357,2 mil pessoas haviam recebido R$ 18,5 bilhões em indenizações e auxílios financeiros no âmbito do Novo Acordo. A empresa também informou a conclusão de 100% das obras previstas nos distritos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu, incluindo moradias, estabelecimentos comerciais e estruturas públicas. A conclusão das construções, entretanto, não deve ser confundida com o encerramento de todas as etapas de reassentamento e reparação.
Na recuperação ambiental, a companhia informou que 47,6 mil hectares de um total de 50 mil previstos para restauração florestal na bacia estavam cercados até setembro de 2026. O trabalho inclui ações de recuperação de áreas degradadas, proteção de nascentes e intervenções em diferentes trechos da bacia hidrográfica.
Os números representam avanços reportados pela empresa, mas a dimensão da reparação exige acompanhamento contínuo e avaliação dos resultados para as pessoas atingidas e para os ecossistemas. A reconstrução não se resume à conclusão de obras ou ao pagamento de indenizações: envolve também a recuperação dos modos de vida, das relações comunitárias e das condições ambientais.
Onze anos depois, Mariana reúne sinais de retomada econômica e etapas importantes da reparação, mas também carrega marcas que não desaparecem com o passar do tempo. A memória de Fundão permanece como referência para a população e para todo o setor mineral.
O desafio daqui para frente é fazer com que a retomada produtiva se traduza em desenvolvimento regional, com benefícios que alcancem a população para além dos ciclos de alta da mineração. Lembrar o que aconteceu e acompanhar o que ainda precisa ser reparado são partes indispensáveis desse caminho.


