A perda do controle territorial dos municípios mineradores

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A recente discussão em torno da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei nº 15.190/2025) reacendeu um debate que ultrapassa os limites técnicos do direito ambiental e alcança uma questão muito mais profunda: a capacidade dos municípios brasileiros de planejarem o próprio território diante da expansão acelerada da atividade minerária.

A manifestação da Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (AMIG Brasil) trouxe atenção para um ponto relevante da nova legislação: o enfraquecimento da participação municipal no acompanhamento de grandes empreendimentos potencialmente capazes de alterar de forma estrutural a dinâmica urbana, econômica, social e ambiental das cidades impactadas pela mineração.

Entretanto, a discussão que emerge desse cenário é ainda maior.

O avanço da mineração contemporânea não produz apenas transformação econômica. Produz transformação territorial. E, muitas vezes, em velocidade superior à capacidade institucional dos municípios de absorverem seus efeitos.

O Brasil possui longa experiência histórica com ciclos minerários. Minas Gerais talvez represente, de forma simbólica, um dos exemplos mais claros dessa relação entre riqueza subterrânea e reorganização territorial. Ao longo das décadas, inúmeros municípios experimentaram crescimento abrupto impulsionado pela mineração, acompanhado por valorização imobiliária acelerada, pressão sobre serviços públicos, expansão urbana desordenada e mudanças profundas no cotidiano das comunidades locais.

A mineração altera a escala das cidades.

Pequenos municípios passam a receber fluxos populacionais intensos, aumento repentino da circulação econômica, crescimento da demanda habitacional, pressão sobre abastecimento hídrico, expansão do trânsito pesado, elevação do custo de vida e sobrecarga de equipamentos públicos como hospitais, escolas e sistemas de transporte.

Em muitos casos, a transformação econômica chega antes do planejamento urbano.

E talvez esteja justamente aí um dos maiores desafios contemporâneos da governança mineral brasileira.

Durante muito tempo, o debate sobre mineração concentrou-se predominantemente nos impactos ambientais diretos dos empreendimentos. Entretanto, a experiência acumulada pelos territórios minerados demonstra que os efeitos urbanos e sociais possuem capacidade igualmente profunda de alterar a vida coletiva.

Quando o custo dos aluguéis sobe abruptamente, quando famílias deixam de conseguir permanecer nos bairros onde sempre viveram, quando a infraestrutura urbana se torna insuficiente e quando a cidade perde progressivamente capacidade de organizar seu próprio crescimento, o impacto deixa de ser apenas econômico. Passa a ser territorial, humano e social.

A especulação imobiliária ocupa posição particularmente sensível nesse processo.

Municípios mineradores frequentemente experimentam forte valorização fundiária impulsionada pela expectativa econômica gerada pelos empreendimentos. Em um primeiro momento, o fenômeno costuma ser interpretado como sinal de prosperidade. Porém, com o passar do tempo, os efeitos tornam-se mais complexos. O aumento acelerado dos preços da terra e da moradia pode expulsar populações tradicionais de determinadas regiões, aprofundar desigualdades urbanas e transformar o acesso à cidade em privilégio econômico.

O território passa a ser reorganizado pela lógica da pressão econômica.

E isso produz consequências que vão muito além da mineração em si.

A expansão urbana acelerada frequentemente ocorre sem infraestrutura proporcional. Crescem bairros periféricos sem planejamento adequado, aumentam os desafios de mobilidade, intensifica-se a pressão sobre saneamento básico e abastecimento de água, enquanto os municípios tentam responder administrativamente a uma transformação que ocorre em ritmo muito superior ao da estrutura pública disponível.

Existe uma dimensão silenciosa nesse processo.

Muitas cidades mineradoras convivem com uma sensação permanente de crescimento sem estabilidade. A economia se expande rapidamente, mas a capacidade institucional de organizar o território nem sempre acompanha a mesma velocidade. A arrecadação mineral pode crescer, enquanto os conflitos urbanos, os desequilíbrios sociais e a sensação de perda de pertencimento territorial também se intensificam.

O debate sobre autonomia municipal ganha relevância exatamente nesse contexto.

Municípios não representam apenas espaços administrativos onde os empreendimentos se instalam. São territórios vivos, compostos por relações comunitárias, infraestrutura urbana, planejamento territorial, memória social e projetos coletivos de futuro.

A retirada da obrigatoriedade da Declaração de Conformidade Municipal dentro do processo de licenciamento ambiental levanta preocupações porque reduz instrumentos preventivos de avaliação territorial justamente em cidades submetidas a fortes processos de transformação econômica e urbana.

A discussão não envolve apenas burocracia administrativa. Envolve capacidade de planejamento.

Em um cenário global marcado pela crescente demanda por minerais críticos e expansão da atividade mineral, o Brasil tende a assumir posição estratégica cada vez mais relevante. Isso significa que os municípios mineradores estarão submetidos a pressões ainda maiores nos próximos anos.

O país precisará decidir, portanto, como pretende conduzir essa expansão.

A experiência histórica brasileira demonstra que crescimento econômico desacompanhado de planejamento territorial frequentemente produz cidades fragmentadas, infraestrutura insuficiente e desigualdades persistentes. A riqueza mineral, isoladamente, nunca garantiu equilíbrio urbano nem desenvolvimento social duradouro.

Por isso, instrumentos de governança territorial tornam-se cada vez mais importantes.

O Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), previsto no Estatuto da Cidade, surge nesse contexto como mecanismo capaz de aproximar mineração e planejamento urbano de forma mais integrada. A análise de impactos sobre mobilidade, moradia, drenagem, valorização imobiliária, infraestrutura pública e qualidade de vida permite compreender que os efeitos da mineração ultrapassam os limites tradicionais do licenciamento ambiental clássico.

Os municípios mineradores convivem diariamente com as consequências concretas da expansão econômica sobre seus territórios. São as administrações locais que enfrentam o aumento da demanda por saúde, educação, habitação, segurança e mobilidade. São as populações locais que experienciam diretamente as mudanças sobre o custo da vida, o acesso à cidade e a reorganização dos espaços urbanos.

A mineração continuará ocupando posição central na economia brasileira e na nova dinâmica geopolítica global. Entretanto, o verdadeiro desafio talvez esteja menos na capacidade de expandir empreendimentos e mais na capacidade de construir territórios capazes de permanecer socialmente habitáveis diante dessa expansão.

Porque cidades não podem ser tratadas apenas como suporte físico da atividade econômica.

São espaços onde pessoas vivem, criam vínculos, constroem memórias e projetam o futuro.

E nenhum projeto de desenvolvimento será verdadeiramente sustentável se os municípios perderem gradualmente a capacidade de participar das decisões que transformarão profundamente sua própria existência.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Lei nº 15.190, de 2025. Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Brasília, DF, 2025.

BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Estatuto da Cidade. Brasília, DF, 2001.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS MINERADORES (AMIG). Nova Lei Ambiental acende alerta em cidades mineradoras para avanço da desordem urbana e pressão sobre serviços públicos. https://amig.org.br/noticias/2026/05/12/nova-lei-ambiental-acende-alerta-em-cidades-mineradoras-para-avanco-da-desordem-urbana-e-pressao-sobre-servicos-publicos/ Acesso 16 de maio de 2026.

SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. 5. ed. São Paulo: Edusp, 2009.

ACSELRAD, Henri. Justiça ambiental e construção social do risco. Desenvolvimento e Meio Ambiente, Curitiba, n. 5, p. 49-60, 2002.

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Mariana Santos e Márcia Itaborahy

MM Advocacia Minerária

 

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