As terras raras brasileiras passaram a fazer parte de uma investigação determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sobre uma possível interferência estrangeira nas eleições do país. Na terça-feira (27), o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal abra um inquérito para apurar, entre outras suspeitas, se recursos minerais estratégicos poderiam ter sido utilizados como moeda de troca por apoio político.
A apuração ocorre no contexto de uma ação apresentada ao STF e deverá verificar se houve articulação envolvendo interesses estrangeiros, candidaturas e a exploração de minerais críticos brasileiros. A decisão também estabelece que o caso seja investigado em procedimento próprio, e não dentro da ação inicialmente analisada pelo ministro.
A suspeita levantada envolve uma possível oferta relacionada à exploração de terras raras em troca de apoio eleitoral. Como os recursos minerais pertencem à União, a exploração depende de autorização ou concessão e deve atender ao interesse nacional.
Terras raras são alvo de investigação sobre possível troca política
Entre os pontos que deverão ser esclarecidos pela PF está a eventual existência de uma proposta envolvendo interesses econômicos estrangeiros e apoio a candidatos. A investigação deverá identificar quem teria feito uma possível oferta, quem seria o destinatário, de que maneira a tratativa teria ocorrido e qual seria a contrapartida prevista.
Dino também mencionou informações anteriores ao processo eleitoral produzidas pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que apontavam incentivos para que agentes externos com interesses no Brasil tentassem influenciar o processo político.
PF também apura publicidade estrangeira e atuação de plataformas
A investigação determinada pelo STF inclui ainda denúncias sobre anúncios eleitorais supostamente financiados por perfis estrangeiros. O candidato Renan Santos, do Missão, levou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apontando publicidades favoráveis a Flávio Bolsonaro na Polymarket, plataforma de apostas que está bloqueada no Brasil desde 2024.
A PF deverá buscar informações sobre quem financiou e contratou as peças publicitárias, de onde vieram os recursos e se houve participação consciente de pessoas ou organizações localizadas no Brasil.
A atuação das grandes plataformas digitais também aparece entre os pontos citados na decisão. Dino fez referência a um relatório do Comitê de Supervisão da Meta, publicado em 22 de outubro, além de manifestações de observadores da ONU sobre interrupções temporárias em contas de campanhas e diferenças nos níveis de engajamento.
O objetivo será verificar se houve manipulação deliberada de algoritmos ou criação de assimetrias capazes de beneficiar ou prejudicar determinadas candidaturas. A apuração poderá envolver empresas como a Meta, responsável por plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp.
A dimensão econômica das terras raras ajuda a explicar a atenção dada ao tema. Dados do USGS, apresentados no Mineral Commodity Summaries 2025, apontam que o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas métricas de óxidos de terras raras (REO) em reservas, atrás da China, que aparece com aproximadamente 44 milhões de toneladas.
Com a abertura do inquérito, caberá à Polícia Federal verificar se as suspeitas apresentadas possuem elementos que comprovem uma eventual relação entre interesses estrangeiros, disputas eleitorais e acesso aos recursos minerais brasileiros.

