O ex-governador de Mato Grosso e senador eleito Mauro Mendes (União) foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) sob suspeita de integrar uma organização criminosa envolvida na entrada ilegal e comercialização clandestina de mercúrio destinado a atividades de garimpo. Segundo a acusação, o esquema teria adquirido irregularmente 589,37 quilos do metal, volume que levou os procuradores a estimar uma movimentação potencial de aproximadamente R$ 747,5 milhões em ouro.
A denúncia, apresentada no âmbito da Operação Hermes Hg, também envolve Luis Antônio Taveira Mendes, filho do ex-governador, Rafael Martins Moreira dos Santos, conhecido como “Piqui”, e as empresas Mineração Aricá e Kin Mineração.
Mauro Mendes foi eleito senador por Mato Grosso com 1.187.352 votos. A acusação sustenta que ele teria relação com o empreendimento investigado, embora seu nome não apareça formalmente como sócio ou administrador das empresas citadas na denúncia.
O parlamentar é acusado de contrabando e de manipulação irregular de resíduos perigosos. O Cidades & Minerais procurou Mauro Mendes por meio das redes sociais para obter sua manifestação sobre as acusações. Até a publicação desta matéria, não havia recebido resposta. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.
Mercúrio teria chegado ao Brasil escondido em diferentes tipos de carga
De acordo com o MPF, a organização teria recorrido a diferentes estratégias para introduzir mercúrio no território brasileiro. Entre as rotas apontadas pelos investigadores estão caminhos terrestres pela Bolívia e tentativas de trazer o produto da China e do México.
Em algumas operações, segundo a denúncia, o metal teria sido ocultado em cargas declaradas como tinta ou potes de shampoo. Também foram identificados esconderijos em veículos e objetos utilizados para dificultar a fiscalização, incluindo garrafas plásticas, pesos de academia e martelos com compartimentos internos.
Outra frente do suposto esquema envolvia a tentativa de conferir aparência regular ao mercúrio. Segundo os procuradores, integrantes da organização teriam criado créditos virtuais falsos no sistema do Ibama para simular a origem legal do produto e facilitar sua circulação comercial.
A investigação também identificou empresas que declaravam recuperar mercúrio a partir de lâmpadas em volumes considerados incompatíveis com a atividade industrial informada. O MPF aponta ainda que parte do mercúrio importado legalmente para utilização odontológica teria sido desviada para atividades de garimpo.
O metal é utilizado na extração de ouro porque consegue se unir às partículas do minério e formar uma amálgama. O processo, porém, envolve riscos ambientais e à saúde. A queima da mistura libera vapor tóxico e pode provocar problemas neurológicos e outros efeitos nocivos. Quando chega aos ambientes aquáticos, o mercúrio também pode ser transformado em metilmercúrio, substância que se acumula em peixes e pode alcançar a população por meio do consumo de alimentos contaminados.
Operação Hermes Hg cita presença de Mauro Mendes em mineradora
Durante as diligências da Operação Hermes Hg, a Polícia Federal encontrou 5,34 quilos de mercúrio dentro de um laboratório. O material estava em uma bacia com água turva, acompanhada de anotações relacionadas ao emprego da substância em atividades de mineração.
A apuração também apontou problemas envolvendo as empresas citadas no processo. Segundo informações atribuídas ao Ibama, a Mineração Aricá não apresentava registros considerados regulares para a aquisição do mercúrio encontrado na investigação. Já a Kin Mineração não possuía inscrição no Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais (CTF/APP).
Dados obtidos após a quebra de sigilo bancário também foram utilizados pelo MPF para apontar possíveis conexões financeiras entre as empresas e pessoas investigadas. Entre 18 de agosto e 6 de setembro de 2022, a Mineração Aricá realizou três transferências que somaram R$ 104.122,93 para a J.S. Torres. Também houve um pagamento de R$ 31 mil para Arnoldo Silva Veggi.
Segundo a Polícia Federal, o chamado Grupo Veggi teria atuado entre 2018 e 2022 em uma estrutura criminosa transnacional voltada ao contrabando e à distribuição ilegal de mercúrio para garimpos na Amazônia e em Mato Grosso.
A investigação cita ainda documentos fiscais emitidos por empresas relacionadas a Edilson Rodrigues Campos em favor da Mineração Aricá e da Salinas Gold. As notas descreviam produtos como “bolas de aço”, “sucata de aço”, “bolas para moinho” e “bolas de ferro”, mas os investigadores identificaram divergências nos valores registrados.
Além desse caso, o senador eleito também é investigado na Operação Heritage, que apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada em um caso envolvendo mais de R$ 308 milhões relacionado a um acordo de precatórios com a empresa de telefonia Oi S.A. Mauro Mendes nega irregularidades.
O Cidades & Minerais entrou em contato com o senador eleito por meio das redes sociais e aguarda manifestação sobre as acusações apresentadas pelo MPF. O canal permanece aberto para o envio de esclarecimentos e posicionamentos.

