O custo de levar minério de ferro do Brasil até a China virou o principal fator de diferenciação entre as mineradoras do país em 2026. O índice de referência da rota Tubarão–Qingdao, conhecido como C3, chegou a US$ 43 por tonelada em setembro. Um ano antes, a mesma rota custava cerca de US$ 19, e a escalada começou após o início da guerra no Irã.
A alta pesa mais sobre o Brasil por causa da distância. Segundo o BTG Pactual, enquanto o trecho Tubarão–Qingdao estava perto de US$ 42 por tonelada, a rota que sai de Dampier, na Austrália, rodava em torno de US$ 19. Pelas contas do Bradesco BBI, o frete na rota Brasil–China passou de uma média histórica de 20% do preço do minério para algo próximo de 40%.
Três preços para o mesmo minério
O resultado é que o minério brasileiro passou a ter, na prática, preços diferentes conforme a forma de transporte. Quem saiu na frente foi a Vale. De acordo com o JPMorgan, entre 70% e 75% dos volumes da mineradora estão cobertos por contratos de longo prazo, com custo de US$ 19 por tonelada sem combustível e US$ 23 com combustível, bem abaixo do valor de mercado. O Goldman Sachs estima uma proteção ainda maior: de 90% a 95% dos embarques de 2026 e cerca de 80% dos de 2027.
Do outro lado estão as empresas que pagam o frete do dia. Para o Goldman, a combinação de minério a US$ 100 e frete perto de US$ 40 não se sustenta para milhões de toneladas que dependem do mercado à vista, e entre 50 e 70 milhões de toneladas anuais de produção brasileira operam hoje perto do ponto de equilíbrio.
Cortes em Minas Gerais
A conta já chegou às minas. No fim de setembro, a CSN Mineração anunciou a redução temporária da produção de minério de baixa qualidade na planta de beneficiamento a seco do complexo de Pires, em Ouro Preto, e baixou sua projeção de volume para 2026 de 45–47 milhões para 39–41 milhões de toneladas.
Analistas já apontavam a empresa como uma das mais expostas, por não ter contratos de proteção de frete como a Vale. A Usiminas também suspendeu as operações na unidade de Samambaia, citando a queda do minério e o aumento do frete marítimo.
O minério que não embarca
A terceira ponta é o minério que fica no Brasil e abastece a siderurgia. A Gerdau informou que, com a expansão de Miguel Burnier, o minério chegará à usina de Ouro Branco a um custo de US$ 30 por tonelada, com teor de 65,5% de ferro, o que reduz o consumo de combustível do alto-forno. A empresa também negocia com compradores no Brasil e no exterior o excedente da mina.
A integração entre mina e usina, porém, depende do mercado de aço. O governo renovou o sistema cota-tarifa para importação de aço, com tarifas de 10,8% e 12% dentro das cotas e 25% acima delas, descartando a proposta de elevar para 35% a alíquota de 21 produtos. A siderurgia nacional segue pressionando por medidas mais duras contra o aço importado, especialmente o chinês.
O Bradesco BBI espera que a restrição de oferta se acelere e abra caminho para o minério voltar à faixa de US$ 105 a US$ 110 por tonelada, o que daria alívio às empresas sem contrato de frete. Até lá, a posição de cada mineradora deve depender menos do teor ou do custo da mina e mais de como ela leva o minério até o cliente.


