Há pouco mais de uma década, o Brasil enfrentou o maior desastre ambiental da sua história, quando a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, se rompeu, liberando 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos em Mariana, Minas Gerais. O impacto foi devastador, não só pelas vidas perdidas, mas também pela severa degradação dos ecossistemas aquáticos e terrestres. No entanto, um estudo recente pode trazer uma luz sobre como as plantas nativa da região reagiu ao ambiente tóxico gerado pela tragédia.
Estudo sobre a adaptação das plantas nativas após desastre de Mariana
Pesquisadores da Unesp, USP, UFMG e UFOP realizaram uma investigação inédita para entender como as plantas locais, como a Assa-peixe (Vernonanthura polyanthe) e a Pimenta-de-macaco (Piper aduncum), se adaptaram ao solo contaminado por metais pesados. Coletadas em áreas atingidas pela lama de rejeitos, as plantas foram submetidas a um processo científico rigoroso para identificar como reagiram à exposição a metais como ferro, arsênio, mercúrio e cádmio, presentes no solo após o desastre.
O estudo, intitulado Brazilian Mining Dam Collapse: Molecular Networking−Guided Metabolomics Reveals Species-Specific Plant Detox, revela que, embora a vegetação tenha sofrido modificações profundas em seu metabolismo, algumas espécies conseguiram sobreviver e até prosperar. Isso abre portas para o uso dessas plantas na recuperação das áreas devastadas.
Respostas bioquímicas e impacto prolongado
A pesquisa descobriu que as plantas responderam de formas distintas aos contaminantes. A Pimenta-de-macaco, por exemplo, demonstrou uma maior produção de compostos ligados à detoxificação e ao sequestro de metais pesados. Já a Assa-peixe apresentou sinais de estresse oxidativo, um dano celular associado ao excesso de radicais livres. Essas diferenças indicam que, embora as plantas tenham se adaptado ao ambiente, o custo metabólico foi elevado, refletindo um impacto ambiental mais profundo e duradouro do que se imaginava.
A análise de mais de 50 substâncias químicas nas plantas mostrou que a exposição aos metais pesados não foi uma contaminação pontual e temporária, como se pensava. “O fato de as plantas ainda exibirem respostas metabólicas marcantes meses após o desastre demonstra que o impacto na região persiste. Esse efeito crônico continua pressionando a vegetação”, explica o professor Alan Cesar Pilon, da Unesp.
Embora a pesquisa traga boas notícias sobre a resistência das plantas nativas, o professor Pilon alerta para um possível risco à saúde humana. As plantas que sobreviveram ao desastre acumularam altos níveis de metais pesados em suas folhas e flores. O consumo dessas plantas, seja para fins medicinais ou como tempero, pode transferir essa toxicidade para as pessoas, alertam os pesquisadores.


