A corrida global por tecnologias limpas e digitalização está revelando um lado pouco discutido: os custos ambientais e sociais da extração de minerais essenciais para essa transformação. Um relatório recente do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) aponta que os impactos recaem de forma desproporcional sobre regiões mais vulneráveis, enquanto os benefícios se concentram em países mais ricos.
O estudo destaca que, embora fundamentais para veículos elétricos, energia renovável e sistemas de inteligência artificial, os minerais críticos estão associados a uma pressão crescente sobre recursos naturais e comunidades locais.
Minerais críticos ampliam desigualdade no uso da água
Um dos principais pontos levantados pela pesquisa é o consumo intensivo de água na mineração. Apenas a produção global de lítio em 2024, estimada em cerca de 240 mil toneladas, exigiu aproximadamente 456 bilhões de litros de água — volume capaz de abastecer milhões de pessoas por um ano.
Em diferentes regiões do mundo, os efeitos já são percebidos. No Chile, a extração no Salar de Atacama responde por grande parte do uso hídrico local, contribuindo para a redução de aquíferos. Na Bolívia, comunidades enfrentam dificuldades para manter a produção agrícola, enquanto nos Estados Unidos projetos minerários também disputam recursos com atividades rurais.
Impactos na saúde e desafios sociais ganham destaque
Além da pressão sobre a água, o relatório evidencia consequências graves para a saúde pública. Na República Democrática do Congo, principal produtora de cobalto, comunidades próximas às áreas de mineração apresentam altos índices de doenças, incluindo problemas de pele e complicações de saúde em mulheres.
Dados apontam ainda para o aumento de casos de má-formação congênita em regiões mineradoras, além da presença de trabalho infantil em parte das operações. O cenário reforça o alerta de que a transição energética pode estar reproduzindo padrões históricos de exploração.
Outro fator crítico é o volume de resíduos gerados. A produção de minerais, especialmente terras raras, resulta em grandes quantidades de rejeitos tóxicos, ampliando riscos ambientais e sanitários em escala global.
Diante desse cenário, o relatório defende mudanças estruturais na governança global, com regras mais rígidas, monitoramento independente e maior proteção às comunidades afetadas.


