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Solastalgia: a Mineração e a dor do desaparecimento do lar

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Há dores que não precisam de partida, há perdas que se concretizam aos olhos de quem está presente e nada pode fazer a respeito.

Elas acontecem quando o lugar que se habita — o rio, a montanha, a vizinhança, o som da tarde, o cheiro da terra — começa a se desfazer diante dos olhos.

Recentemente, o nosso escritório levou ao Tribunal mineiro a situação de uma família inteira que viu perder-se seu lugar de referência familiar, em razão do acionamento da sirene da Vale, por causa de instabilidade na barragem de Gongo Soco, em Barão de Cocais.

Tratamos de desenvolver, para o caso concreto em análise no Tribunal, o conceito de solastalgia.

Essa experiência, ao mesmo tempo íntima e coletiva, foi nomeada pelo filósofo australiano Glenn Albrecht, em 2005: um tipo de sofrimento psíquico causado pela perda do ambiente vivido, ainda que sem deslocamento físico, mas com ruptura simbólica e emocional profunda, decorrente da degradação ambiental que ocorre, em diversos casos, no local de habitação ou de referência locacional da pessoa.

A solastalgia não é a nostalgia de quem vai embora, não é o passado. É o desassossego de quem fica — a dor que se instala silenciosamente de quem vê seu mundo desmoronar por dentro, ainda que permaneça de pé, é uma dor de agora.

Trata-se de uma forma de sofrimento psíquico e existencial provocada pela degradação do ambiente vivido, com ou sem deslocamento físico, mas com ruptura simbólica, emocional e identitária.

Albrecht explica que a palavra une “solace” (conforto) e “algia” (dor), exprimindo o paradoxo de buscar consolo justamente onde ele se tornou impossível.

Em tempos de emergência climática e de reconfiguração territorial por empreendimentos extrativos, a solastalgia deixa de ser conceito acadêmico e passa a ser diagnóstico social.

Ela se manifesta nas comunidades de Mariana, Brumadinho, Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas, Barão de Cocais — e em tantas outras que aprendem, na prática, que perder o território é perder também uma parte da própria história.

Reconhecer a solastalgia é, antes de tudo, reconhecer a humanidade dos atingidos.

 

A solastalgia, portanto, não é apenas uma reação emocional à destruição ambiental, mas um sintoma coletivo de desequilíbrio civilizatório.

A solastalgia é o desalento de quem assiste à transformação destrutiva do lugar que lhe servia de espelho, do lugar que se ama e conhece, a perda da continuidade da vida, por ver diluído o sentido de pertencimento que dava forma ao cotidiano.

Enquanto a nostalgia nasce do afastamento — do tempo, da terra ou das pessoas —, a solastalgia brota da permanência impotente, de quem fica e vê tudo o que amava ser lentamente corrompido.

Ela é o desassossego de quem permanece, e, mesmo de pé, vê o próprio mundo desmoronar.

A solastalgia descreve algo mais profundo que a mera tristeza ambiental: ela é a fratura entre o indivíduo e o seu lugar, a dissolução de um vínculo afetivo que é também ontológico.

O espaço que antes protegia — a casa, a terra, o rio, a serra — passa a ser fonte de ameaça.

O familiar se torna estranho.

O abrigo se converte em desconforto.

Ela denuncia o modo como o progresso técnico e econômico interrompe as tramas invisíveis que sustentam a identidade e o sentido de comunidade.

Na experiência dos atingidos — por barragens, mineração, grandes obras —, esse sofrimento adquire contornos ainda mais profundos: o lugar continua ali, mas já não responde ao chamado da memória.

Nas regiões impactadas, a solastalgia tornou-se quase um idioma compartilhado — uma língua de perdas, falada em silêncio por quem vê o lugar onde nasceu, cresceu e viveu tornar-se outro sem sua permissão.

Os atingidos não enfrentam apenas o deslocamento físico, mas sobretudo o esvaziamento simbólico do território: a erosão da identidade, da memória e dos vínculos afetivos que compõem o que chamamos, no sentido mais profundo, de “casa”.

A casa, aqui, não é apenas o imóvel, mas a totalidade sensorial e afetiva do existir — o cheiro do café na varanda, o curso do rio ao fundo, a sombra antiga de uma árvore, o caminho repetido entre vizinhos.

A montanha existe, mas está ferida. Não tem a forma de antes.

O rio corre, mas turvo. Não alimenta mais ninguém.

O silêncio da tarde foi substituído por ruído metálico de máquinas e cmainhões, e o cheiro da terra, antes úmido e doce, cedeu lugar ao pó mineral.

A paisagem se torna testemunha da perda, e o corpo, sua extensão mais sensível.

O que antes era paisagem se torna perda emocional contínua. E a perda, nesse caso, é cumulativa: perdem-se os referenciais, os rituais, a convivência, o pertencimento.

O que se desagrega fora — a casa, a natureza, o território — também se fragmenta dentro, em forma de ansiedade, insônia, desamparo.

A geografia externa invade a geografia emocional.

Assim, a solastalgia é também um espelho das relações de poder: ela revela quem são os sujeitos que vivem o custo invisível do desenvolvimento, quem é deixado para trás quando o lucro avança.

Cada comunidade atingida, cada morador que vê sua vizinhança desaparecer sob a poeira, encarna esse fenômeno: a impossibilidade de encontrar consolo no próprio lar.

A solastalgia é, portanto, o luto pelo ambiente vivido, e esse luto é legítimo, embora muitas vezes invisível aos olhos técnicos dos relatórios de impacto.

E essa perda, diferente da morte pontual, é contínua — porque o ambiente degradado permanece à vista, lembrando todos os dias o que foi perdido.

Esse tipo de sofrimento não é uma reação isolada de indivíduos frágeis diante de transformações inevitáveis.

É o sintoma social de um modelo de desenvolvimento que adoece territórios inteiros, impondo às pessoas o peso de se adaptarem ao inadaptável.

Ao patologizar a dor do atingido — chamando-a de trauma, ansiedade, depressão — sem reconhecer sua origem estrutural, desvia-se o foco da causa para o efeito.

A solastalgia, contudo, não nasce dentro do indivíduo, mas nas margens das relações de poder que moldam seu mundo: nasce da mina que cresce, da água que seca, do solo que se parte, das instituições que silenciam.

Ela é, portanto, psicológica na expressão, mas política na raiz.

No plano jurídico e político, reconhecer a solastalgia é reconhecer que há danos que não se expressam em cifras nem em hectares.

É admitir que a degradação ambiental não se mede apenas pela alteração da paisagem, mas pela interrupção do vínculo entre o ser humano e seu espaço de existência.

E que, portanto, a reparação integral — ambiental, social e moral — exige também a restauração da dignidade simbólica e emocional dos atingidos.

O problema é que, ao reduzir o impacto ambiental a tabelas e planilhas, apaga-se a dimensão humana da perda.

Os relatórios calculam volume de sedimentos, distância de cursos d’água e área desmatada — mas não registram a solidão dos quintais abandonados, o medo das chuvas que podem romper barragens, nem o desconforto de respirar o ar que já não cheira à infância.

Ocorre que não há desenvolvimento sustentável possível quando o sofrimento é institucionalizado.

A solastalgia é, nesse sentido, uma forma de resistência existencial: ela revela o que os números escondem e o que os relatórios não suportam nomear — o fato de que o impacto ambiental é também uma violência simbólica.

O atingido não busca apenas indenização — busca reconhecimento e reconstituição simbólica de sua dignidade.

O desafio é compreender que o ambiente não é cenário, mas parte do sujeito. Quando o território é ferido, a subjetividade coletiva também se fere.

E ignorar essa ligação é perpetuar a violência que a solastalgia denuncia: a violência de transformar o lar em zona de sacrifício, o silêncio em norma e o sofrimento em estatística.

É nesse ponto que o Direito e as políticas públicas precisam amadurecer: enquanto o sofrimento ambiental não for reconhecido como dano integral, a reparação será sempre insuficiente.

Referências:

  • ALBRECHT, Glenn. Solastalgia: a new concept in health and identity. PAN (Philosophy, Activism, Nature) Journal, n. 3, 2005.
  • ALVES, José E. D. A dimensão emocional do deslocamento compulsório: a solastalgia como categoria política. Revista Brasileira de Estudos Populacionais, v. 38, 2021.
  • WhatsApp Image 2025 09 17 at 14.02.16
    Mariana Santos e Márcia Itaborahy

    MM Advocacia Minerária

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