ODS (Saúde e Segurança do Trabalho) e a Mineração – Do discurso à prática

Publicado em

 

É da ciência de todos que, essencialmente, as atividades minerárias têm altíssimo impacto, positivos e negativos – uns mais, outros menos, na localidade em que se instale. Toda a comunidade ao redor tem sua vida, pessoal e coletivamente, alterada.

Não à toa, nos dias de hoje, há a grande preocupação social e econômica – a somar-se à preocupação com o ambiente natural – em relação às repercussões decorrentes dos empreendimentos minerários. Em todos os momentos ligados à atividade minerária, há impactos, maiores ou menores. E estes são constantes objetos de reflexão: o período prévio à instalação, nas fases de pesquisa e de expectativas, com a chegada de grandes empreendimentos; a vida que se altera durante as atividades, no local, hajam vista os novos comércios e indústrias que passam a existir, o inevitável aumento da população local e a necessidade de estruturação urbana, em função da mineração. Mas é atualíssima a enorme preocupação, também, em relação ao que fazer quando a mineradora se for, quando o recurso mineral acabar, visto que é finito, que a exploração tem tempo certo de existência.

Ocorre que, após as tragédias de Mariana e Brumadinho, ambas em Minas Gerais, ampliaram-se, no Brasil e no mundo, as preocupações com as consequências dos desastres ligados à mineração, e, dentre todas, surgiram as buscas de solução para o tanto que a atividade pode afetar – e tem afetado, por tantos anos – o trabalhador.

Mariana foi uma das maiores tragédias da mineração, do ponto de vista da amplitude geográfica de suas consequências, o alcance dos impactos sobre o meio ambiente, tendo a lama se espalhado, por diversos locais, através do Rio Doce. Além disto, cinco cidadãos do local e 14 operários vieram a óbito.

O rompimento da barragem de Fundão, pertencente à empresa Samarco, controlada, por sua vez, pela Vale e pela BHP Billiton, foi o maior do mundo em termos de volume de rejeitos vazado (43 milhões de metros cúbicos) e de extensão geográfica dos danos (a lama desceu pelo vale do Rio Doce, espalhando poluentes ao longo de 668 quilômetros de cursos d’água e chegou até o Oceano Atlântico, manchando centenas de quilômetros de praias), e é o décimo do mundo, até agora, em número de mortos. (…) Os mortos foram 5 moradores de Bento Rodrigues e 14 trabalhadores, 13 deles terceirizados e prestadores de serviço de outras empresas e 1 da Samarco. (https://worldminetailingsfailures.org/. )

Brumadinho, como todos sabem, foi a maior tragédia da mineração, em número de mortos, principalmente, trabalhadores, empregados e terceirizados da Vale.

O mundo do trabalho é foco da sociedade e do empreendedor, que adotam posturas distintas, e antagônicas, por vezes, conflitivas: o trabalhador e sua família utilizam-se do trabalho como meio de sua subsistência e busca de prosperidade, e querem ver reconhecida sua posição como propulsor essencial da economia. O empreendedor vê o trabalhador como uma de suas ferramentas de crescimento econômico; inúmeras vezes, perfeita e facilmente, substituível.

Fato é que o mundo do trabalho busca o constante equilíbrio, mas tem permanecido instável, ao longo do tempo, sofrendo os impactos diretos e indiretos do sistema produtivo e das regulações do mercado de trabalho; a legislação e as interpretações se alteram, de acordo com a política econômica adotada e as reações de mercado.

Os desastres de Mariana e de Brumadinho não foram os únicos que ocorreram em Minas Gerais, nos últimos anos. Em 1986, o rompimento da barragem de rejeitos da mina de Fernandinho, em Itabirito, deixou 7 mortos; em 2001, a barragem da Mineração Rio Verde, no distrito de São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima, conhecido como Macacos, matou 5 trabalhadores; em 2014, 3 operários morreram, em novo acidente em Itabirito, dessa vez na Mineração Herculano. Há outros. Faz tempo, a mineração, em Minas, mata e adoece os trabalhadores mineiros.

A mineração tem mantido uma taxa de acidente de trabalho em altíssimos níveis, conforme o Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho (AEAT), disponível no site do Ministério do Trabalho e Previdência do Governo Federal: a mineração é considerada nível 4, ou seja, é uma das atividades mais perigosas para o trabalhador, classificada em nível máximo, em razão dos riscos inerentes à atividade e, também, ao alto custo, para o empreendedor, para aplicar a legislação vigente e as medidas de prevenção.

O Brasil adotou a Política de Saúde do Trabalhador e a Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho – (PNSST), instituída por meio do Decreto nº 7.602, de 7 de novembro de 2011. Para implementação dessa política, devem-se incluir todas as pessoas que exercem trabalho, independentemente do tipo de vínculo, forma de inserção no mercado de trabalho, seja rural ou urbano.

Este regramento nacional deverá ser interpretado e aplicado, sob orientação dos Objetivos de Desenvolvimento sustentável – ODS – estabelecidos pela ONU, desde o início deste século, propondo ao mundo adoção de medidas que abrangem as várias formas de vida do ser humano e suas relações.

Já tarda sua aplicação efetiva!

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são um plano de ação universal, em três dimensões: social, econômico e ambiental, essenciais à vida humana.

O documento contém 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas que se propõem serem alcançadas até 2030 (ONU, 2015).

Dentre estes objetivos, do ponto de vista específico da segurança e saúde do trabalhador, são de suma importância os ODS3: Saúde e Bem-Estar – Garantir o acesso à saúde e qualidade e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades; ODS8: Trabalho Decente e Crescimento Econômico – Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos e todas.

A importância da aplicação de tais orientações, nas relações de trabalho, é óbvia: o trabalhador deve deixar de ser apenas um número.

Conclui-se, por lógico, que, sendo atividade de maiores lesões causadas ao trabalhador – e consequentemente, às suas famílias – ou seja, um dano que se amplia, consideravelmente – compete às empresas mineradoras a adoção de medidas mitigadoras dessa condição negativa de sua atividade. Têm essas empresas grande poder de alterarem as circunstâncias dos impactos que causam, saindo do discurso e aplicando efetivamente, medidas mundialmente propostas e esperadas.

 

Márcia Itaborahy e Mariana Santos

MM Advocacia Minerária

Matérias Relacionadas

Mauro Nunes assume Desenvolvimento Econômico e Turismo de Ipatinga a partir de novembro

Mauro Nunes foi nomeado para comandar a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Ipatinga, com posse prevista para 1º de novembro

Vale vai criar 3.603 vagas em nova planta de minério em Mariana

Nova planta da Vale em Mariana poderá processar 21,8 milhões de toneladas de minério por ano e gerar 3.603 contratações durante as obras

Mulheres avançam 25% na mineração, mas desigualdade nas lideranças ainda são grandes

A participação feminina na mineração chegou a 25% em 2026, mas desigualdades persistem na liderança e a paridade de gênero pode ficar para 2049

Mineração Guanhães recebe licença para multiplicar produção de minério bruto em Minas

Mineração Guanhães recebe licenças ambientais para ampliar capacidade de 300 mil para 1,5 milhão de toneladas anuais de minério bruto em Minas Gerais, com validade até 2033

últimas Matérias

Prefeito de Conceição do Mato Dentro exonera secretário após denúncia de incentivo a boicote político contra comerciantes

Otacílio Costa afirmou que a decisão foi tomada após denúncia recebida pela Ouvidoria da Prefeitura; secretário teria incentivado boicote a estabelecimentos comerciais por divergências políticas

Edição de outubro do jornal Cidades & Minerais

A nova edição do jornal Cidades & Minerais já está disponível! Nesta edição, você confere os principais acontecimentos, notícias e tendências que movimentam o setor mineral

Vale vê novas regras dos minerais críticos como possível impulso para crescer no Brasil

Vale avalia que novas regras para minerais críticos podem estimular investimentos no Brasil e destaca expectativa de maior protagonismo da mineração na economia

Polícia prende suspeito de agredir deputada Duda Salabert durante fiscalização de mineração ilegal em Nova Lima

Um suspeito de agredir Duda Salabert e um engenheiro ambiental durante fiscalização de mineração ilegal em Nova Lima foi preso pela Polícia Civil de Minas Gerais