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Minerais críticos e água: o limite hídrico da nova mineração brasileira

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A nova corrida mineral já começou. Ela não tem a aparência antiga dos ciclos coloniais, nem se apresenta apenas como extração de ouro, ferro ou diamante. Agora, vem acompanhada de uma linguagem moderna: transição energética, economia verde, baterias, eletrificação, semicondutores, tecnologias limpas, soberania produtiva e minerais críticos.

Lítio, nióbio, grafita, níquel, cobre, manganês, vanádio, silício e terras raras passaram a ocupar posição estratégica na economia global. São minerais necessários à infraestrutura material do século XXI. Sem eles, não há expansão consistente de veículos elétricos, painéis solares, turbinas eólicas, redes elétricas, equipamentos médicos, tecnologias digitais e sistemas de defesa.

O Brasil, por sua formação geológica e por sua trajetória mineral, está no centro desse debate. Possui capacidade mineral expressiva, diversidade de substâncias, grandes províncias minerárias e histórico consolidado de produção. Mas a pergunta que precisa ser feita não é se o país tem minério: temos! A pergunta decisiva é em que condições esse minério será extraído, beneficiado, transportado, transformado e incorporado ao desenvolvimento nacional.

Essa discussão passa, inevitavelmente, pela água.

A mineração sempre teve relação direta com os recursos hídricos. O que muda, no contexto atual, é a escala da demanda, a sensibilidade dos territórios, a pressão internacional por minerais estratégicos e a necessidade de compreender a água como limite material da atividade mineral.

Não há mineração sem água. Mas também não há vida, abastecimento, agricultura, biodiversidade ou permanência digna nos territórios sem segurança hídrica.

Por isso, a água precisa ocupar o centro do debate sobre a nova mineração brasileira.

A mineração impacta os recursos hídricos de várias formas.

A primeira delas é o consumo de água. A água é utilizada na lavra, no beneficiamento, na separação mineral, no controle de poeira, no transporte de polpa, na disposição de rejeitos, na lavagem de materiais, na estabilização de estruturas e na recuperação ambiental.

Em empreendimentos de grande escala, esse consumo pode concorrer com outros usos da bacia hidrográfica: abastecimento humano, pequenas propriedades rurais, irrigação, dessedentação animal, pesca, turismo, usos tradicionais e manutenção de ecossistemas.

A segunda forma de impacto está na alteração da dinâmica natural das águas. Minas a céu aberto, cavas profundas, pilhas de estéril, barragens, canais, drenagens e estruturas de apoio modificam a paisagem e interferem no caminho da água. A chuva que antes infiltrava no solo pode passar a escoar com maior velocidade. A água que alimentava uma nascente pode ter seu fluxo alterado. A bacia que mantinha determinado equilíbrio pode passar a responder de forma mais instável a períodos de chuva intensa ou de seca prolongada.

Quando há necessidade de rebaixamento do lençol freático, o impacto pode ser ainda mais sensível. O bombeamento contínuo de água subterrânea para permitir a lavra pode reduzir a vazão de nascentes, interferir em poços, alterar cursos d’água e comprometer sistemas hidrogeológicos conectados. Esse efeito nem sempre se limita à área da cava. A água subterrânea não obedece às divisas do imóvel, do empreendimento ou do município. Ela se movimenta por sistemas complexos, muitas vezes mal compreendidos pela população e insuficientemente explicados pelos estudos apresentados.

A terceira dimensão é a qualidade da água. A mineração pode produzir contaminação por efluentes, rejeitos, sedimentos, metais pesados, alteração de pH, aumento de turbidez e carreamento de partículas para cursos d’água. Quando o solo é removido, exposto e revolvido, cresce o risco de erosão. Quando há pilhas de estéril mal geridas, barragens inseguras ou drenagem inadequada, a água se torna veículo de dispersão de poluentes.

A contaminação hídrica raramente permanece confinada. Um córrego afetado alimenta outro curso d’água. Um rio comprometido repercute na pesca, na vegetação ciliar, no abastecimento, na agricultura, na saúde animal, na biodiversidade aquática e na segurança das comunidades. A água é o meio pelo qual o impacto se desloca, se amplia e se prolonga.

Há ainda o assoreamento. A retirada de vegetação, a movimentação intensa de solo, a abertura de acessos, a disposição inadequada de materiais e a erosão de áreas mineradas podem lançar grande volume de sedimentos nos cursos d’água. O resultado é a redução da profundidade dos rios, o soterramento de habitats aquáticos, a alteração da vazão, a maior frequência de inundações, a perda de qualidade da água e o comprometimento de usos comunitários.

Essa é uma forma de impacto muitas vezes subestimada. O assoreamento não tem a dramaticidade imediata de uma lama tóxica, mas pode destruir lentamente a funcionalidade de um curso d’água. Rios e córregos deixam de cumprir suas funções ecológicas e sociais. A água permanece na paisagem, mas já não serve da mesma forma à vida que dependia dela.

A mineração também impõe riscos extremos às águas por meio das barragens e estruturas de rejeitos. Rompimentos produzem danos de escala excepcional: devastam ecossistemas aquáticos, destroem margens, contaminam sedimentos, interrompem abastecimento, comprometem atividades econômicas e geram danos psicológicos e territoriais que permanecem por anos. Mesmo quando não há rompimento, a existência de estruturas de alto risco altera a relação das comunidades com o território e com os cursos d’água próximos.

A água, nesse contexto, deixa de ser apenas recurso natural. Torna-se marcador de segurança, de confiança e de permanência.

É por isso que o debate sobre minerais críticos precisa ser mais honesto. Não basta afirmar que determinado mineral será utilizado em tecnologia limpa. A finalidade final do mineral não apaga os impactos de sua extração. Uma bateria pode integrar a transição energética global, mas a lavra do mineral que a alimenta pode pressionar uma bacia hidrográfica local, reduzir uma nascente, contaminar um curso d’água ou alterar a rotina de uma comunidade rural.

Esse é o paradoxo da mineração contemporânea: minerais extraídos em um território podem viabilizar tecnologias consideradas sustentáveis em outro. O ganho climático global pode conviver com custo hídrico local. Essa contradição não impede a mineração, mas exige outro nível de responsabilidade pública, empresarial e social.

O Brasil conhece bem os riscos de tratar riqueza mineral como sinônimo automático de progresso. A história do país demonstra que grandes ciclos extrativos podem gerar infraestrutura, arrecadação e crescimento, mas também podem deixar dependência econômica, desigualdade territorial, passivos ambientais e comunidades fragilizadas. O debate atual sobre minerais críticos não pode repetir essa lógica com vocabulário renovado.

A nova mineração brasileira deve ser avaliada por critérios mais exigentes. Não basta verificar a existência da jazida, a viabilidade econômica e o interesse internacional. É preciso examinar a bacia hidrográfica em que o projeto se insere, a disponibilidade real de água, os usos existentes, a vulnerabilidade das nascentes, a qualidade dos cursos d’água, a dependência das comunidades locais, a regularidade do fornecimento urbano, o risco de contaminação, o potencial de assoreamento, a segurança das estruturas e a capacidade de monitoramento ao longo de toda a vida da mina. E o depois.

A análise isolada de cada empreendimento é insuficiente. As águas funcionam por sistemas. Uma bacia hidrográfica pode receber múltiplas pressões: mineração, agricultura, expansão urbana, barragens, estradas, captações, mudanças climáticas e eventos extremos. O licenciamento ambiental precisa considerar efeitos cumulativos e sinérgicos, não apenas impactos individualizados em documentos separados.

Também é necessário enfrentar a distância entre estudo técnico e compreensão social. Relatórios ambientais, modelagens hidrológicas, mapas hidrogeológicos, estudos de dispersão de contaminantes e planos de monitoramento não podem servir apenas para cumprir formalidades. Precisam ser auditáveis, compreensíveis, acessíveis e debatidos com quem vive no território.

As comunidades do entorno e as populações urbanas que dependem de uma nascente ou do regular fornecimento não podem ser tratados como espectadores de uma decisão técnica fechada. O produtor rural que usa poço, o morador que depende de abastecimento local, o pescador que conhece o rio, a população que convive com barragem, o município que será impactado pela pressão hídrica e o trabalhador que atua na operação fazem parte da realidade que o estudo precisa enxergar.

As demandas sociais em torno da água não são meras resistências abstratas à mineração. São expressão de uma pergunta legítima: quem suportará o risco hídrico da atividade? Como será o uso desse elemento essencial, durante e depois da mineração?

Essas perguntas se desdobram em outras. Quem terá acesso aos dados de monitoramento? Quem poderá contestar os resultados apresentados pela empresa? Quem fiscalizará a qualidade da água? Quem responderá se uma nascente secar? Quem garantirá abastecimento se houver contaminação? Quem acompanhará a situação após o fechamento da mina? Quem ficará no território quando o ciclo econômico se encerrar?

A resposta a essas perguntas não pode vir apenas depois do dano. Precisa estar incorporada ao planejamento, ao licenciamento, às condicionantes, às garantias financeiras, aos planos de contingência e aos mecanismos de participação.

A governança hídrica da mineração deve integrar quantidade e qualidade da água. Deve olhar para águas superficiais e subterrâneas. Deve tratar barragens, rejeitos, efluentes, sedimentos, drenagem, rebaixamento de lençol, nascentes, abastecimento e biodiversidade como partes de um mesmo sistema. Separar artificialmente essas dimensões facilita a aprovação de projetos, mas empobrece a compreensão do impacto real.

Também é indispensável reconhecer que a água tem valor ecológico, econômico, social e cultural. Para certas comunidades, a água não é apenas insumo. É referência territorial, memória, produção, alimentação, saúde e pertencimento. Quando um curso d’água é degradado ou uma nascente desaparece, não se perde apenas uma vazão mensurável. Perde-se parte da organização da vida naquele lugar.

No contexto dos minerais críticos, essa discussão ganha dimensão estratégica. A disputa global por esses bens tende a aumentar a pressão sobre novos territórios minerários, inclusive em áreas sensíveis. Quanto maior a demanda internacional, maior deve ser a capacidade brasileira de planejar, regular, fiscalizar e, quando necessário, impor limites.

Soberania mineral não se resume a produzir mais. Soberania também é saber dizer como, onde, quando e sob quais condições produzir. Um país que entrega seus minerais sem proteger suas águas entrega mais do que matéria-prima. Entrega segurança territorial, estabilidade ambiental e parte de sua capacidade futura de decisão.

A mineração moderna pode ter papel relevante na transição energética e no desenvolvimento brasileiro. Mas esse papel não autoriza atalhos. A pressa global por minerais não pode reduzir o rigor do licenciamento, relativizar riscos hídricos ou transformar comunidades em custo operacional.

A verdadeira modernidade da mineração não estará apenas nos minerais extraídos, nas tecnologias que eles alimentarão ou nos mercados que atenderão. Estará na capacidade de produzir com rastreabilidade, eficiência hídrica, redução de rejeitos, controle de contaminação, segurança de estruturas, transparência de dados, monitoramento independente e respeito às populações afetadas.

A pergunta central, portanto, não deve ser apenas: há minério?

Deve ser: há água suficiente? Há controle sobre os impactos? Há proteção das nascentes? Há segurança para os rios? Há transparência sobre os riscos? Há plano para o depois? Há participação real das comunidades? Das cidades? Há capacidade institucional para fiscalizar?

A mineração do século XXI será julgada também pela água que preserva, porque a palavra de ordem ainda é a sustentabilidade.

O Brasil tem capacidade mineral. Mas sua maturidade será medida pela capacidade de transformar essa riqueza em desenvolvimento sem comprometer bacias hidrográficas, cursos d’água, aquíferos, biodiversidade, cidades e comunidades. A nova mineração brasileira vai precisar compreender que a água é o limite material, concreto, que definirá que medidas serão sustentáveis, que separará desenvolvimento de degradação.

Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO. Perspectivas e avanços da gestão de recursos hídricos na mineração. Brasília: ANA, 2024. Disponível em: https://ibram.org.br/wp-content/uploads/2024/04/ANA_Perspectivas-e-Avancos-da-Gestao-de-Recursos-Hidricos-na-Mineracao_vf2_web-1-2.pdf. Acesso em: 22 jun. 2026.

BANCO MUNDIAL. Minerals for Climate Action: The Mineral Intensity of the Clean Energy Transition. Washington, DC: World Bank, 2020. Disponível em: https://openknowledge.worldbank.org/entities/publication/4dd08d0c-ab51-4955-a464-35a95201a5eb. Acesso em: 22 jun. 2026.

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BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Brasília: MME, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mme/pt-br/a-revolucao-brasileira-em-energia-e-mineracao/mineracao-e-transformacao-mineral/politica-nacional-de-minerais-criticos-e-estrategicos. Acesso em: 22 jun. 2026.

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MIGUEL, Rodrigo. Relações entre mineração e recursos hídricos subterrâneos. Águas Subterrâneas, 2024. Disponível em: https://aguassubterraneas.abas.org/asubterraneas/article/view/30219. Acesso em: 22 jun. 2026.

SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. PDAC 2026: SGB lança publicação com panorama do potencial de minerais estratégicos no Brasil. Brasília: SGB, 2026. Disponível em: https://www.sgb.gov.br/w/pdac-2026-sgb-lanca-publicacao-com-panorama-do-potencial-de-minerais-estrategicos-no-brasil. Acesso em: 22 jun. 2026.

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