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Minas Gerais entre dois mundos: o lítio do Jequitinhonha e as terras raras do Sul

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Há algo de profundamente simbólico na forma como o mundo volta seus olhos para Minas Gerais, posicionando o Estado ao centro do mapa global.

O mesmo território que, séculos atrás, alimentou o ciclo do ouro e forjou o imaginário da riqueza e da exaustão, ressurge agora como epicentro da nova corrida por minerais estratégicos, em duas frentes distintas, mas complementares: o lítio do Vale do Jequitinhonha, no Norte, e as terras raras do Sul e do Alto Paranaíba.

Em tempos de transição energética e tecnológica, Minas reaparece como território estratégico de fronteira, não mais do extrativismo colonial, mas da disputa contemporânea por recursos essenciais à revolução digital e à descarbonização da economia.

O Estado, que sempre foi espelho do Brasil em sua complexa relação com o subsolo, volta ao centro do debate global com duas frentes geológicas e políticas complementares, representando, em escalas diferentes, os polos simbólicos do futuro energético e digital: o lítio do Vale do Jequitinhonha, como elemento-chave da mobilidade elétrica e das baterias de armazenamento; as terras raras, no Sul e Alto Paranaíba, base dos ímãs permanentes, da eletrônica de precisão, do funcionamento do pensamento tecnológico, alicerce da eletrônica de alta precisão, das turbinas eólicas e da própria infraestrutura da inteligência artificial.

Ambos condensam o desafio do século XXI: sustentar a economia da informação e da energia limpa sem reproduzir os padrões de degradação ambiental e injustiça social que marcaram o passado mineral brasileiro.

Mas essa atenção global não se traduz apenas em promessas de desenvolvimento.

Ela traz também riscos concretos de desequilíbrio ambiental, social e jurídico, testando a maturidade do Estado, do próprio país e das empresas quanto à capacidade de conciliar produção estratégica e responsabilidade territorial.

Essa atenção global, que em outros tempos seria recebida apenas como sinônimo de progresso, traz, assim, sua sombra.

O interesse econômico, quando não acompanhado por mecanismos sólidos de governança, pode acentuar desequilíbrios territoriais, deslocar populações, pressionar recursos hídricos e comprometer a estrutura social de regiões frágeis.

Minas Gerais — e o Brasil, por extensão — encontram-se diante de um teste de maturidade institucional: será possível transformar o potencial geológico em desenvolvimento sustentável, sem repetir o ciclo histórico de riqueza para poucos e impacto para muitos?

Essa pergunta atravessa as políticas públicas – ou deveria estar aí presente! – e, certamente, as estratégias empresariais, ainda que com enfoques diversos, sendo essencial à própria ideia de futuro que o país deseja construir.

Porque, no fundo, o que está em jogo não é simplesmente a extração de minerais raros — é a redefinição da relação entre o humano e o território, entre o desenvolvimento e o pertencimento, entre o avanço tecnológico e a integridade ambiental, entre neocolonialismo e soberania nacional.

Minas volta a ser observada com atenção não somente pelos recursos que abriga, mas pelo modo como escolherá lidar com eles.

E essa escolha — mais do que geológica — é civilizatória.

Neste contexto, os minerais estratégicos de Minas Gerais transformam o mapa da dependência mineral em todo o mundo.

É que o mundo atravessa uma transformação silenciosa, mas estrutural.

A chamada “corrida verde” é muito mais que uma competição tecnológica — é uma disputa geopolítica pela autonomia de suprimentos críticos.

O que antes era uma corrida por petróleo e gás, hoje se converte em uma disputa por minerais estratégicos — insumos fundamentais à transição energética e à revolução tecnológica que redefine o século XXI.

O motor elétrico substitui o combustível fóssil, mas não elimina a dependência material do mundo moderno: apenas a transfere para o subsolo.

É nele que se escondem o lítio, o cobalto, o níquel, o nióbio, o cobre e as terras raras — componentes invisíveis, mas indispensáveis à promessa de um mundo “verde” e digital.

Essa nova corrida é movida por uma urgência dupla: reduzir emissões de carbono e garantir autonomia tecnológica.

A transição energética, antes debatida apenas em conferências ambientais, tornou-se questão de segurança e sobrevivência.

A União Europeia e os Estados Unidos adotaram políticas industriais que tratam o acesso a minerais como tema de segurança nacional, especialmente após os choques de oferta durante a pandemia e o agravamento das tensões no mercado asiático.

Países que antes dominavam o mercado pela exploração de hidrocarbonetos agora disputam o controle das cadeias de suprimento mineral — e é nesse cenário que o Brasil volta a figurar no mapa geopolítico como fornecedor confiável e estratégico, reformulando o tabuleiro mundial do mercado.

Nos últimos anos, legislações como o Critical Raw Materials Act (CRMA), da União Europeia, e a Inflation Reduction Act (IRA), dos Estados Unidos, alteraram as regras do jogo:  estimulam a produção e o processamento doméstico, exigindo, ao mesmo tempo, rastreabilidade, padrões ambientais e transparência nas cadeias de suprimento.

Essas normas pressionam os países fornecedores — entre eles o Brasil — a demonstrar sua capacidade produtiva, com metas rígidas para produção, refino e reciclagem de minerais críticos até 2030, e credibilidade institucional: ou seja, não basta ter o minério — é preciso demonstrar como ele é extraído, processado e reinserido na economia.

É nesse cenário que o Brasil, e especialmente Minas Gerais, se tornam protagonistas potenciais: um território com diversidade geológica, estabilidade democrática e base técnica consolidada.

Mas também um território que carrega a memória e as feridas de um modelo extrativista ainda em mutação.

E assim Minas e o Brasil despontam como alternativa viável ao eixo asiático, que concentra a maior parte do refino e processamento de minerais estratégicos.

O país possui reserva geológica expressiva, matriz energética majoritariamente renovável e infraestrutura industrial consolidada. Mas, mais do que isso, o Brasil tem algo que poucos competidores oferecem: potencial de soberania sobre toda a cadeia mineral, da extração ao beneficiamento, com condições técnicas e jurídicas de verticalização produtiva.

Contudo, essa vantagem é frágil se não for acompanhada por planejamento de longo prazo.

A exploração desordenada, movida apenas pelo impulso do mercado, corre o risco de transformar o país novamente em exportador de matéria-prima bruta — rico em solo e pobre em valor agregado.

Para que o Brasil ocupe um lugar de protagonismo, é preciso industrializar o subsolo, gerar conhecimento e tecnologia local, e construir uma governança mineral capaz de equilibrar crescimento, justiça social e integridade ambiental.

Nos dois polos de Minas, o Vale do Jequitinhonha foi, por décadas, sinônimo de invisibilidade econômica.

Hoje, é vitrine mundial.

Projetos como o Complexo Grota do Cirilo (Sigma Lithium) e a expansão de novas frentes de exploração transformaram o Jequitinhonha num ecossistema de mineração de alta tecnologia, com planos de verticalização para refino químico e produção de materiais catódicos.

No entanto, a transformação acelerada traz dilemas profundos.

A extração de espodumênio — principal mineral de lítio da região — exige beneficiamento intensivo, com uso expressivo de água e reagentes químicos.

As condicionantes ambientais, nesse contexto, precisam ir além dos protocolos de licenciamento: devem garantir o balanço hídrico, a gestão dos rejeitos e a integridade das microbacias, sob pena de transformar o avanço tecnológico em nova forma de vulnerabilidade.

Há também a questão fundiária.

A valorização repentina das terras e a expansão de servidões e arrendamentos geram pressões sobre superficiários e comunidades rurais, muitos dos quais não dispõem de assessoria técnica para negociar contratos equilibrados.

Esses atores — invisíveis na lógica de mercado, mas centrais na realidade social — precisam ser reconhecidos como parte legítima das decisões sobre o uso do território.

A mineração de lítio, portanto, numa região estruturalmente pobre e mineralmente rica, medirá se o Brasil é capaz de participar da economia verde sem reproduzir velhos padrões de exploração social e ambiental.

Enquanto o norte de Minas vive a euforia do lítio, o Sul do estado e o Alto Paranaíba assistem à redescoberta das terras raras, especialmente nas formações vulcano-alcalinas de Poços de Caldas, Araxá e Caldas. Esses elementos — neodímio, praseodímio, disprósio, térbio — são a base dos ímãs permanentes usados em turbinas eólicas, motores elétricos e componentes eletrônicos de alta precisão.

O interesse é evidente: o Brasil possui reservas expressivas e um parque mineral maduro, com infraestrutura, energia e mão de obra qualificada.

O problema é que o passivo histórico pesa.

O legado da INB Caldas, marcado por resíduos radioativos e décadas de desconfiança, deixou lições duras sobre a necessidade de monitoramento radiológico contínuo, planos de fechamento e comunicação transparente com as comunidades.

As terras raras também desafiam a sustentabilidade dos processos de beneficiamento.

A extração em argilas iônicas, considerada “mais limpa”, ainda demanda controle rigoroso de reagentes e efluentes, sob risco de contaminação difusa. A fronteira tecnológica, nesse caso, é a da mineração química controlada, onde o erro não se corrige com remediação, mas se evita com governança.

No entorno de Poços de Caldas, a presença de áreas turísticas, periurbanas e agrícolas torna o desafio ainda mais sensível: é necessário equilibrar mineração, uso do solo e qualidade de vida, com planos de tráfego, ruído e segurança concebidos de forma participativa.

Em ambas as regiões, polos entre os quais nos encontramos, sem desconsiderar as várias frentes de outras minerações em todo o território mineiro, a governança social da mineração é o ponto de inflexão entre desenvolvimento e conflito.

O sucesso dos empreendimentos dependerá menos da tecnologia e mais da qualidade das relações com o território.

Para os superficiários, o foco deve estar em contratos claros e equilibrados: servidões com prazo definido, cláusulas de reversão, deveres de manutenção e compensações proporcionais ao uso.

A ausência desses instrumentos tem sido origem recorrente de litígios e desgastes institucionais.

Para as comunidades, a questão é mais ampla. Trata-se de garantir o direito à consulta prévia, livre e informada (Convenção 169 da OIT), a participação contínua e efetiva nos processos de decisão e o acesso a mecanismos independentes de reparação e monitoramento.

O impacto social não se limita à perda de área produtiva — ele afeta ritmos culturais, modos de vida e referências identitárias.

A mineração moderna precisa, portanto, adotar paradigmas de governança integrada, em que o comunitário deixe de ser mero “impactado” e passe a ser parceiro na definição do legado.

Sem isso, qualquer discurso de sustentabilidade será retórico.

É relevante pensar que, paradoxalmente, essa tão proclamada autonomia energética pode produzir novas formas de dependência.

Os países que hoje compram o lítio ou as terras raras também impõem regras pesadas que, se não forem internalizadas com soberania, podem aprisionar o Brasil num modelo de obediência técnica — uma economia meramente extrativista.

A verdadeira independência mineral, portanto, não está apenas na posse do minério, mas na capacidade de definir suas condições de exploração e de distribuição de benefícios.

O desafio brasileiro é transformar o interesse global em projeto nacional.
Isso exige articulação entre governo, empresas, comunidades e academia — e um olhar atento para os territórios mineradores, onde o impacto real se materializa.

O sucesso do país na economia verde não dependerá unicamente das toneladas extraídas, mas de como essas toneladas se traduzirão em educação, infraestrutura, saúde e dignidade social.

Minas Gerais, nesse contexto, é um laboratório do futuro: um Estado que pode provar que a mineração do século XXI não precisa repetir o século XVIII — que é possível gerar riqueza sem esvaziar o território, e produzir energia sem consumir o que há de mais essencial na vida humana: o lugar de pertencimento.

Referências

BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Projeto Jequitinhonha. Brasília: MME, 2010. Disponível em: file:///C:/Users/rodri/Downloads/Projeto_Jequitinhonha.pdf. Acesso em: 18/11/2025.

BRASIL. Agência Nacional de Mineração. Sumário Mineral Brasileiro 2023: Lítio (ano-base 2022). Brasília: ANM, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/economia-mineral/publicacoes/sumario-mineral/sumario-mineral-brasileiro-2023-/litio-2023-ano-base-2022.pdf. Acesso em: 18/11/2025

BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Terras Raras: Situação Atual e Perspectivas. Brasília: MME, 2015. Disponível em: file:///C:/Users/rodri/Downloads/IRM-Terras_raras.pdf. Acesso em: 18/11/2025

ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Convenção nº 169 sobre Povos Indígenas e Tribais. Genebra: OIT, 1989. Disponível em: https://www.ilo.org. Acesso em 18/11/

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Mariana Santos e Márcia Itaborahy

MM Advocacia Minerária

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