Por Hugo Soares, CEO da Construtora Vale Verde S/A
O Brasil vive um momento que merece atenção quando o assunto é infraestrutura. Depois de anos marcados por gargalos históricos em áreas essenciais, o país chega a 2026 com uma perspectiva de R$ 300 bilhões em investimentos no setor. O avanço é significativo, mas o volume de recursos, por si só, não resolve uma questão estrutural: precisamos deixar de tratar obras essenciais como respostas pontuais a problemas acumulados e passar a enxergá-las como parte de uma política permanente de desenvolvimento.
Infraestrutura exige planejamento de longo prazo porque seus efeitos também são duradouros. Uma rodovia eficiente reduz custos logísticos. Sistemas adequados de saneamento e abastecimento criam condições para a expansão das cidades. Obras de mobilidade conectam trabalhadores a oportunidades. Quando essa estrutura funciona, empresas ganham produtividade, municípios tornam-se mais preparados para receber novos negócios e a população percebe os resultados no cotidiano.
Os números mostram que o país atravessa um ciclo relevante. Segundo dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), divulgados pelo Valor Econômico, os investimentos no setor chegaram a R$ 280 bilhões em 2025, dos quais 84% vieram da iniciativa privada. Para 2026, a projeção alcança R$ 300 bilhões. O dado revela a dimensão da participação empresarial nesse processo e reforça a necessidade de um ambiente capaz de oferecer previsibilidade a projetos que atravessam anos entre planejamento, execução e operação.
Essa previsibilidade se torna ainda mais importante diante das condições enfrentadas por quem investe e executa obras de grande porte. Juros, disponibilidade de crédito e custos da cadeia produtiva interferem diretamente em decisões tomadas hoje, mas cujos resultados serão percebidos daqui a vários anos. Infraestrutura não combina com improviso. Projetos complexos demandam segurança jurídica, planejamento e continuidade.
A engenharia pesada traduz essa discussão econômica em entregas concretas. Por trás de grandes obras existe uma extensa cadeia que mobiliza profissionais, fornecedores, equipamentos, tecnologia e conhecimento técnico. O resultado ultrapassa a estrutura construída. Empregos são criados durante a execução, profissionais são qualificados e empresas locais passam a integrar cadeias produtivas mais sofisticadas.
Minas Gerais oferece exemplos claros dessa relação. Em Itabira, o Projeto Rio Tanque deverá ampliar a segurança hídrica de uma cidade com cerca de 113 mil habitantes. O empreendimento prevê aproximadamente 25 quilômetros de tubulação e uma nova estação de tratamento com capacidade para fornecer até 600 litros de água por segundo, acima da demanda atual do município, estimada em aproximadamente 400 litros por segundo. Com investimento aproximado de R$ 1,17 bilhão, a obra evidencia como infraestrutura hídrica também cria condições para o crescimento e a diversificação econômica de um território.
A Construtora Vale Verde participa desse empreendimento com a implantação de aproximadamente 23 quilômetros de tubulação, a construção de três estações elevatórias, além de outras estruturas necessárias ao sistema. Para executar esse escopo, cerca de 980 trabalhadores diretos serão mobilizados ao longo de todo o período de execução do projeto. Uma obra dessa dimensão mostra, em escala local, um princípio que vale para todo o país: infraestrutura produz efeitos econômicos antes mesmo de entrar em operação.
O caso do abastecimento de água é especialmente emblemático. Segurança hídrica interfere na capacidade de uma cidade receber moradores, atrair empresas e sustentar novas atividades econômicas. Quando falta infraestrutura básica, o potencial de crescimento encontra um limite físico. Quando ela é planejada com antecedência, abre espaço para decisões de longo prazo.
É por isso que a discussão brasileira precisa avançar da quantidade de obras para a qualidade do ambiente que permite realizá-las. A crescente participação privada representa uma oportunidade importante, mas projetos estruturantes dependem de coordenação entre poder público, empresas e mecanismos de financiamento capazes de respeitar o horizonte próprio da infraestrutura.
O país precisa construir uma visão que atravesse ciclos econômicos e mudanças de governo. Projetos essenciais não podem depender apenas das urgências de cada momento. Precisam nascer de prioridades claras, planejamento técnico e capacidade de execução.
Os R$ 300 bilhões projetados para 2026 são um sinal positivo. O desafio brasileiro, porém, é transformar esse movimento em trajetória. Quando tratamos infraestrutura como política continuada, criamos condições para que o capital encontre segurança, a engenharia encontre espaço para inovar e as cidades estejam preparadas para crescer.
Competitividade não começa na porta de uma fábrica nem termina na planilha de uma empresa. Ela depende da estrada que transporta a produção, da energia que sustenta a atividade econômica e da água que permite que uma cidade funcione. Investir nessas bases significa preparar o Brasil que queremos construir nas próximas décadas.


