Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues — distrito de Mariana, na Região Central de Minas Gerais —, marcou o maior desastre socioambiental da história do Brasil. A enxurrada de rejeitos de minério deixou 19 mortos, devastou comunidades inteiras, contaminou o Rio Doce e atingiu o litoral do Espírito Santo.
Dez anos depois, Mariana e as regiões afetadas ainda convivem com as consequências da tragédia. Apesar de avanços em políticas de segurança de barragens e indenizações, os desafios de reparação e de recuperação ambiental permanecem.
A tragédia que chocou o país
Por volta das 16h20 do dia 5 de novembro de 2015, a barragem de rejeitos conhecida como Fundão, pertencente à Samarco Mineração S.A. — controlada pelas gigantes Vale S.A. e BHP Billiton Brasil Ltda. — se rompeu liberando cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lama tóxica.
A onda de rejeitos destruiu os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, avançou por mais de 600 km ao longo do Rio Doce, atingiu dezenas de municípios em Minas Gerais e Espírito Santo e chegou ao oceano Atlântico. Além das 19 vítimas fatais, milhares de pessoas ficaram desalojadas e centenas perderam suas fontes de renda.
O impacto ambiental foi devastador: morte de peixes, contaminação de solos e águas, assoreamento do rio e destruição de ecossistemas ribeirinhos e marinhos. O evento expôs falhas graves na fiscalização e na gestão de riscos da mineração brasileira.
As empresas e a responsabilidade
A barragem em Mariana era de responsabilidade da Samarco, que pertencia à Vale e à BHP Billiton. Após o desastre, as três empresas enfrentaram processos judiciais, multas bilionárias e forte desgaste de imagem.
A Samarco teve suas operações suspensas por anos, retomando parcialmente as atividades apenas em 2020, sob rígidas condições de segurança e monitoramento. As controladoras, Vale e BHP, criaram a Fundação Renova, encarregada de conduzir ações de reparação, reassentamento e compensação às vítimas e ao meio ambiente.
Apesar disso, atingidos e entidades civis apontam morosidade e burocracia no pagamento das indenizações e falta de transparência na condução dos programas da fundação.
Fundação Renova: reparação ainda incompleta
A Fundação Renova foi instituída em 2016 para executar os programas de reparação da tragédia de Mariana definidos nos acordos judiciais e extrajudiciais. Desde então, a entidade afirma ter destinado bilhões de reais em indenizações, reconstruções e ações ambientais.
Porém, as críticas são recorrentes. Famílias aguardam há anos a entrega de novas moradias nos reassentamentos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, e muitos atingidos reclamam da demora no reconhecimento de seus direitos e da desigualdade nos valores pagos.
Segundo levantamentos do Ministério Público Federal (MPF) e movimentos de atingidos, a reparação ainda está longe de ser concluída, tanto no campo social quanto ambiental. A complexidade do desastre, somada às disputas judiciais e à fragmentação de responsabilidades, contribui para a lentidão dos processos.
Os processos judiciais
As ações civis públicas e penais contra Samarco, Vale e BHP Billiton se arrastam há quase uma década. Houve diversas tentativas de acordos, renegociações e impugnações entre as partes envolvidas.
Em 2023, o governo federal e o Ministério Público reabriram discussões sobre um novo acordo de reparação, com valores que poderiam ultrapassar R$ 100 bilhões. Na esfera criminal, executivos e engenheiros chegaram a ser denunciados por homicídio doloso, mas o processo sofreu mudanças de enquadramento jurídico e reviravoltas. A responsabilização individual ainda é um dos pontos mais controversos e lentos da tragédia.
Mudanças na legislação e na fiscalização
O desastre de Mariana provocou uma reformulação na política de segurança de barragens no Brasil. Entre as principais medidas adotadas estão:
Criação da Agência Nacional de Mineração (ANM), em 2017, substituindo o antigo DNPM, com atribuições específicas para fiscalização de barragens de rejeitos.
Obrigatoriedade de Planos de Ação de Emergência (PAEBM) para todas as barragens classificadas como de alto risco.
Proibição de novas barragens a montante, método de construção utilizado em Fundão e considerado de maior risco.
Aprimoramento da transparência pública sobre dados de estabilidade e monitoramento das estruturas.
Endurecimento das sanções administrativas e penais para responsáveis por negligência e falhas de segurança.
Essas medidas foram reforçadas após o segundo desastre da mineração brasileira, o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em 2019 — que matou 272 pessoas. Juntas, as tragédias de Mariana e Brumadinho transformaram a política de fiscalização mineral do país e despertaram um debate permanente sobre a segurança das operações e a responsabilidade social das mineradoras.
A situação atual de Mariana e do Rio Doce
Dez anos depois, Mariana ainda carrega cicatrizes visíveis. Os distritos destruídos seguem em processo de reconstrução, e o novo Bento Rodrigues — erguido com recursos da Fundação Renova — começa a receber parte das famílias atingidas.
No entanto, especialistas alertam que a recuperação ambiental do Rio Doce levará décadas. A lama se incorporou ao leito do rio e ao solo, alterando ecossistemas e comprometendo a pesca e o abastecimento em diversas cidades.
A economia local também sente os efeitos: a mineração segue sendo o principal motor da região, mas setores como agricultura e turismo ainda enfrentam dificuldades para se reerguer.
Tragédia de Mariana trouxe avanços, mas ainda existem pendências
Entre os avanços do período, destacam-se o fortalecimento institucional da fiscalização, o aumento das exigências de segurança e o debate público sobre transparência ambiental.
Por outro lado, a lentidão na indenização das vítimas, a complexidade dos processos judiciais e a recuperação parcial do meio ambiente mostram que a reparação está longe de ser completa.
Movimentos sociais e especialistas defendem a criação de mecanismos independentes de monitoramento, maior participação das comunidades atingidas e garantias legais de prevenção, para que tragédias como a de Mariana jamais se repitam.
Samarco responde sobre os 10 anos da tragédia de Mariana
O Cidades & Minerais entrou em contato com a Assessoria de Comunicação da Samarco para entender as principais ações tomadas pela empresa após a tragédia do rompimento da barragem de Fundão, em 2015.
A empresa comunicou que, em dezembro de 2020, suas operações foram retomadas, com um novo sistema de disposição de rejeitos que eliminou o uso de barragens. A Samarco agora emprega um processo de filtragem e empilhamento a seco, para dispor 80% dos rejeitos, enquanto os 20% restantes são depositados em cava confinada.
A empresa também revelou que, além do Centro de Monitoramento e Inspeção (CMI), foram criados os Centros de Operações Integradas (COI), que garantem um controle rigoroso de todas as etapas da produção, desde a extração até o controle ambiental. Todos esses avanços fazem parte de uma estratégia para minimizar riscos e prevenir novos acidentes.
Além disso, a empresa detalhou que todas as suas barragens e estruturas geotécnicas estão sendo constantemente auditadas e certificadas, seguindo as melhores práticas do setor e garantindo a estabilidade de suas operações.
Em relação às indenizações, a Samarco informou que, até setembro de 2025, foram pagos R$ 14 bilhões a mais de 288 mil pessoas afetadas pelo desastre, com uma estimativa de que os valores continuam a ser repassados ao longo dos próximos anos. A empresa também se comprometeu a concluir as obras nos distritos atingidos, com 389 projetos já finalizados e outros em andamento, com previsão de conclusão até 2026.
No campo ambiental, a Samarco também reforçou as ações de compensação, como o reflorestamento compensatório em áreas ao longo da bacia do rio Doce. A empresa já cercou e protegeu mais de 42 mil hectares e, com o objetivo de restaurar 50 mil hectares, continua investindo na recuperação da vegetação nativa e das nascentes da região.
Além disso, a Samarco monitora a qualidade da água da bacia do rio Doce, com dados disponibilizados para o público no Portal Monitoramento Rio Doce. Segundo a empresa, a qualidade da água apresenta parâmetros que são semelhantes aos níveis anteriores ao rompimento da barragem, o que demonstra os avanços nas ações de recuperação hídrica.
Em sua resposta ao Cidades & Minerais, a Samarco enfatizou que o rompimento da barragem de Fundão é um marco doloroso e que jamais será esquecido. A empresa se compromete a continuar com os esforços de reparação e, com a homologação do Novo Acordo do Rio Doce, consolidou um novo modelo de gestão que envolve todos os níveis de governo e instituições de Justiça.
A Samarco reforçou que a segurança continua sendo sua principal prioridade, e as lições aprendidas ao longo dos últimos 10 anos têm orientado todas as suas operações, garantindo que tragédias como a de Mariana não se repitam.
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