A possibilidade de eventos climáticos extremos colocou a segurança da mineração no centro de um debate realizado em Belo Horizonte, com participação de representantes do setor mineral, órgãos públicos e especialistas. O encontro discutiu como antecipar riscos associados às chuvas intensas, preparar estruturas geotécnicas e aprimorar a comunicação com comunidades que vivem próximas a áreas potencialmente vulneráveis.
O evento “Preparação e Gestão de Riscos na Mineração diante de eventos climáticos: Super El Niño e Períodos Chuvosos” ocorreu na quarta-feira (21 de outubro), na sede da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG). A iniciativa foi promovida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), em parceria com a Agência Nacional de Mineração (ANM), o SINDIEXTRA, a HidroBR, o Instituto Tecnológico Vale (ITV) e a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam).
A programação abordou as previsões meteorológicas para os próximos meses, os possíveis efeitos do El Niño em diferentes regiões brasileiras e os desafios de manter a segurança operacional de estruturas geotécnicas submetidas a condições climáticas adversas.
Super El Niño aumenta a atenção sobre a gestão de riscos na mineração
Com a aproximação do período chuvoso, a preparação antecipada foi apontada como uma das medidas essenciais para reduzir vulnerabilidades e melhorar a capacidade de resposta a emergências, especialmente em Minas Gerais.
O diretor de Assuntos Minerários do IBRAM, Julio Nery, ressaltou a importância da articulação entre empresas, poder público e moradores das áreas de influência dos empreendimentos. “A preparação antecipada, aliada à cooperação entre empresas, poder público e comunidades, é essencial para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a capacidade de resposta a eventos extremos”, avaliou.
A atuação integrada também foi destacada pelo diretor da ANM, Luiz Paniago Neves, que chamou a atenção para a necessidade de antecipar cenários e organizar respostas envolvendo diferentes instituições. “Nos anteciparmos a essas situações é muito importante para a população, para a Defesa Civil, para a ANM, para a Feam e para todos os órgãos envolvidos”, afirmou.
Outro ponto discutido foi a importância de disponibilizar orientações claras para a população. Segundo Roberto Gomes Júnior, diretor de Gestão de Barragens e Recuperação de Área de Mineração e Indústria da Feam, informações sobre áreas de risco e pontos de encontro ajudam os moradores a compreender como agir diante de alertas. Esses recursos também contribuem para coordenar o trabalho dos órgãos estaduais e das equipes de Defesa Civil.
Aplicativo PROX completa 5 anos e amplia comunicação sobre riscos climáticos
Uma das ferramentas apresentadas durante o encontro foi o Aplicativo PROX, desenvolvido para facilitar o compartilhamento de informações sobre riscos e eventos climáticos. A solução é resultado de uma parceria entre o IBRAM e a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), estabelecida há cinco anos.
A gerente de Assuntos Minerários do IBRAM, Aline Nunes, destacou que a plataforma reúne informações e recursos voltados à gestão de riscos e à comunicação com a sociedade. “O uso da ferramenta pelo município de Eldorado do Sul e pelos simulados já realizados por mineradoras e empresas do setor de energia, falam por si só. Esses cases refletem toda a jornada que tivemos até aqui, para a entrega de uma tecnologia que concentra em um só local as informações e recursos necessários para gestão de riscos e comunicação com a sociedade.”
A experiência de Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, demonstrou como o sistema pode ser aplicado fora do contexto estritamente mineral. O município foi fortemente atingido pelas enchentes de 2024 e adotou o PROX como ferramenta oficial após buscar uma solução tecnológica para gestão georreferenciada de emergências.
De acordo com Mário Rocha, coordenador municipal de Proteção e Defesa Civil, a plataforma passou a contribuir para a elaboração do Plano de Contingência Municipal (PLANCON). Entre as aplicações estão o mapeamento de pontos de encontro, a definição de rotas de fuga e o envio de alertas personalizados para áreas previamente delimitadas.
O debate também incluiu possibilidades de ampliar o uso do sistema com a participação de comunidades, empresas e organizações locais. Julia Jungmann, diretora de Desenvolvimento Institucional do Instituto Mondó, ressaltou que o envolvimento dos moradores é essencial para que as informações sejam compreendidas e incorporadas ao planejamento dos territórios. “O envolvimento das comunidades é fundamental para que as informações disponibilizadas pelo sistema sejam compreendidas e incorporadas ao planejamento local, contribuindo para a adaptação climática e para a redução de vulnerabilidades”, ressaltou.
A dimensão humanitária foi abordada por Marcela Balthar, cofundadora do Movimento União BR. A organização reúne uma rede de mais de 3 mil organizações sociais e atua em conjunto com as Defesas Civis e a iniciativa privada no atendimento a populações afetadas por catástrofes e emergências.
A experiência do movimento pode contribuir para aproximar o setor mineral de outras iniciativas de preparação e resposta a desastres. Entre as possibilidades discutidas estão o fortalecimento das ações preventivas e o apoio à gestão de emergências relacionadas a chuvas intensas e incêndios florestais.
O encontro reforçou que o enfrentamento de eventos climáticos extremos depende não apenas do monitoramento das condições meteorológicas, mas também do acesso a informações confiáveis, da preparação das equipes e da coordenação entre empresas, autoridades e comunidades potencialmente afetadas.


