A mineração, considerada peça-chave na transição energética, vive um momento de forte cobrança sobre suas práticas ambientais, sociais e de governança. Ao mesmo tempo em que cresce a demanda por insumos estratégicos e de baixo carbono, o setor precisa lidar com desafios como a relação com comunidades e os impactos ambientais de suas operações.
Especialistas apontam que, após episódios envolvendo barragens e com o avanço dos minerais críticos no mercado global, o nível de exigência sobre sustentabilidade aumentou significativamente. Nesse cenário, equilibrar expansão produtiva e responsabilidade socioambiental se tornou uma das principais tarefas das empresas.
Pressão por ESG na mineração cresce com novos investimentos
Com a transição energética impulsionando novos projetos, o Brasil passa a atrair mais investimentos na mineração. No entanto, a ampliação das atividades também intensifica disputas relacionadas ao uso do território e aos impactos ambientais.
“A agenda de transição energética traz mais investimento em projetos de mineração no Brasil. Lidar com conflitos ambientais e de acesso aos territórios será a tônica do setor, e mediar esses conflitos é onde está a inteligência”, diz Rinaldo Mancin, diretor de sustentabilidade e assuntos associativos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Levantamento global da consultoria EY, que ouviu 500 executivos do setor, mostra que a chamada “licença social para operar” está entre os principais pontos de atenção da mineração, ficando atrás apenas de fatores financeiros e de produtividade. Já as questões ligadas ao ESG aparecem entre os dez maiores desafios, incluindo temas como preservação de biomas e metas climáticas.
Minério verde ganha espaço com promessa de até 50% menos emissões
Para responder às exigências do mercado, empresas têm apostado em soluções mais limpas, como o chamado “minério verde”. Um dos destaques é o “pellet feed”, material com alto teor de ferro que permite reduzir em até 50% as emissões de gases de efeito estufa na produção de aço.
Esse tipo de produto tem ampliado sua presença em mercados internacionais, como Europa e Oriente Médio, e orienta projetos de expansão no Brasil. Empresas como a Cedro Mineração já planejam novas unidades focadas nesse material, com iniciativas que incluem eliminação de barragens, uso de equipamentos elétricos e transporte com menor impacto ambiental.
Outras operações relevantes, como o sistema Minas-Rio, da Anglo American, também reforçam o papel estratégico desse minério no cenário global. “Hoje o minério de ferro premium ocupa um papel estratégico no mercado global, contribuindo para a descarbonização da cadeia do aço e para o avanço da transição energética”, diz Ana Cunha, diretora de assuntos corporativos e sustentabilidade da empresa.
Projetos ainda mais ambiciosos, como o Ferro Verde, na Bahia, prometem produção com emissão zero de carbono, utilizando energia renovável e hidrogênio verde. A iniciativa prevê bilhões em investimentos e busca posicionar o Brasil como referência em produtos sustentáveis na mineração.
Apesar dos avanços tecnológicos, o setor ainda enfrenta questionamentos. Organizações da sociedade civil alertam que o discurso ambiental pode ser utilizado para flexibilizar regras e ampliar benefícios econômicos. “O setor se coloca como agente da transição energética e de boas práticas, o que torna seus projetos elegíveis em linhas de financiamento ESG. Mas há uma distância entre discurso e prática”, diz Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc.


