COP30 e o limite da humanidade

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Entre 2023 e 2025, o mundo atravessou um ciclo curto e intenso de promessas ambientais. Três conferências — COP28 em Dubai, COP29 em Baku e a atual COP30 em Belém — compõem um retrato fiel de uma década em que a diplomacia corre atrás do clima. Três anos bastaram para que o discurso amadurecesse em forma, mas a natureza respondesse em fúria.

Nesse intervalo, o planeta discutiu financiamento, metas e neutralidade de carbono, mas também assistiu a enchentes sem precedentes, secas prolongadas e, agora, ao primeiro tornado de grande escala a devastar uma cidade brasileira. É como se o relógio da Terra tivesse adiantado uma hora — e os relógios humanos, atrasado dez.

Dubai marcou o alerta, Baku expôs o impasse e Belém, agora, se transforma em espelho. Sob o calor amazônico, o Brasil recebe líderes e observadores enquanto ainda recolhe destroços do vendaval que atingiu o Sul do país dias antes da conferência. A coincidência é amarga: enquanto o mundo se reúne para discutir o futuro climático, o presente desaba sobre nossos telhados.

Este artigo propõe um recorte: observar três anos de cúpulas climáticas como se fossem capítulos de uma mesma história — a tentativa de transformar promessas em ação, de reconstruir o elo entre a humanidade e o planeta. É uma travessia que vai do deserto ao rio, da retórica ao vento, da mineração da terra à mineração da consciência.

COP28 em Dubai – O prenúncio da ebulição

Foi no deserto que o planeta anunciou seu próprio superaquecimento.

A COP28, realizada em Dubai, em 2023, revelou o ponto de ruptura simbólico e moral da governança climática global. A expressão “ebulição global”, cunhada à época, soou como um lamento tardio — a confissão de um mundo que já não está apenas aquecendo, mas fervendo.

A escolha dos Emirados Árabes para sediar o evento expôs a contradição de uma era: discutir o fim dos combustíveis fósseis em um país cuja economia repousa sobre o petróleo. Ali, entre arranha-céus e oásis artificiais, a sustentabilidade se apresentou como espetáculo de contrastes. Enquanto o discurso exaltava a neutralidade de carbono e a transição energética, os holofotes refletiam o brilho de uma indústria que ainda move o planeta — e o aprisiona.

O Brasil chegou a Dubai com a promessa de protagonismo. Com uma matriz energética majoritariamente limpa e a maior floresta tropical do mundo, apresentou-se como líder natural da transição verde. Mas o protagonismo ambiental não se mede em discursos de plenário; mede-se na coerência entre o que se defende fora e o que se pratica dentro. E, nesse espelho, a imagem se torna turva.

O Acordo de Paris, firmado em 2015, previa o limite de 1,5 °C de aquecimento global até 2050. Em Dubai, as projeções já ultrapassavam essa marca. Relatórios apontavam que, se mantido o ritmo atual de emissões, o século terminaria com um aumento médio de 2,7 °C. As consequências seriam — e estão sendo — desastrosas: colheitas perdidas, rios em colapso, cidades submersas.

A COP28 trouxe também a percepção de que os países emergentes, embora vítimas, são parte indispensável da solução. Na pauta, o Brasil apareceu como uma ponte entre o Norte e o Sul globais: exportador de commodities, mas também guardião de biomas, mediador entre interesses industriais e humanitários.

Entretanto, as promessas de Dubai ficaram suspensas no ar quente do deserto. A transição energética foi proclamada, mas não implementada. O financiamento climático foi discutido, mas não concretizado. O debate sobre emissões foi revisitado, mas não transformado em ação.

O planeta falava de urgência, enquanto os governos escreviam protocolos. O futuro continuava em risco, e o deserto seguia refletindo o brilho incômodo de uma modernidade que insiste em ignorar o calor que ela própria produz.

Do deserto das promessas à geopolítica do Cáucaso, o mundo seguiu viagem — mas a bagagem era a mesma: metas, relatórios e a falta de coragem.

COP29 em Baku – A promessa que empacou no vento

Depois de Dubai, o mundo partiu do deserto para o Cáucaso.

E foi ali, entre o Mar Cáspio e os ventos gelados de Baku, que a diplomacia climática parou diante do espelho e hesitou.

A COP29, realizada em 2024, não foi o palco das rupturas esperadas — foi o ensaio da dúvida.

Sob o lema “Fortalecer as Ambições e Garantir a Ação”, o encontro começou com discursos inflamados, mas terminou em silêncio morno.

O que deveria ser o momento de consolidação das promessas virou o retrato exato da paralisia global: um planeta que reconhece a urgência, mas teme o preço da mudança.

Enquanto os líderes se revezavam em plenário, os relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente ecoavam como sinos de alerta: mesmo que todas as metas anunciadas fossem cumpridas, a Terra ainda aqueceria até 2,9 °C.

Ou seja — estamos corrigindo vírgulas em um texto que já está pegando fogo.

Em Baku, falou-se de um novo fundo, o FAFC — Fundo de Ação Financeira Climática — uma tentativa de cobrar das nações e das empresas fósseis o que o planeta já lhes cobra em catástrofes.

A proposta soava grandiosa: arrecadar 1 bilhão de dólares por ano para energias renováveis e adaptação de países vulneráveis.

Mas, por trás das cifras, o dilema persistia: o mundo continua medindo compromissos em dólares, quando o custo real é em vidas.

O secretário da ONU para o Clima, Simon Stiell, resumiu com uma frase que atravessou o plenário como vento frio: “Discutimos valores monetários quando deveríamos discutir valores morais.”

E foi exatamente isso que se viu.

Entre gráficos e metas, faltou alma.

Entre acordos e compromissos, faltou coragem.

A COP29 não fracassou — apenas revelou que o fracasso já havia começado antes.

O clima, lá fora, seguia impaciente.

Enquanto se negociavam milésimos de emissões, o mundo vivia os milímetros de chuva que devastavam cidades inteiras.

O planeta gritava — e as mesas de negociação pareciam feitas de vidro, tão frágeis quanto as promessas que sustentavam.

Assim o mundo saiu de Baku: cansado de si mesmo, farto das metáforas e faminto de ação.

E foi com essa urgência suspensa que o planeta seguiu seu curso, aproximando-se da COP30 com mais interrogações do que respostas.

E foi à sombra dessas dúvidas que Belém se preparou para receber o mundo — um país tropical tentando provar que a floresta ainda podia ser solução, e não sintoma.

COP30 em Belém – O espelho da Amazônia e o juízo da humanidade

Belém respira o mundo. A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas — a COP30 — acontece agora, sob o calor úmido da Amazônia, onde o verde transpira urgência e as águas refletem mais do que o céu: refletem o limite da nossa espécie.

Aqui, cada palavra pesa. Cada decisão — ou ausência dela — reverbera na floresta que acolhe o planeta inteiro. A Amazônia, que por tanto tempo foi paisagem, torna-se protagonista.

O bioma que regula o clima da Terra agora abriga os debates que tentam salvar o que ainda resta. Mas, ela não assiste em silêncio.

Enquanto os painéis falam em neutralidade de carbono, o vento que passa pelas cops parece responder: “Chegaram tarde.”

O Brasil ocupa o centro do palco global — e não há como fugir dos refletores.

De um lado, apresenta-se como potência verde, matriz limpa, futuro da transição energética com seus minerais críticos.

De outro, carrega o peso de suas contradições: o desmatamento que avança, a mineração em transição, a pobreza que resiste.

O país que guarda a maior floresta tropical do planeta é também aquele que mais luta para provar que pode protegê-la.

E, como prenúncio desse momento, o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos, realizado em Brasília, em agosto de 2025, já trazia o debate que agora atravessa a COP30.

Foi ali, no coração político do país, que especialistas, gestores e juristas se reuniram para discutir o papel do Brasil na corrida global pela transição energética.

E a conclusão era clara: não há futuro verde sem mineração — mas tampouco haverá futuro com uma mineração cega, surda e predatória.

A ex-ministra Izabella Teixeira sintetizou com precisão: “A transição climática não se faz com frases de efeito, mas com coerência institucional.”

O diretor-geral da Agência Nacional de Mineração, Mauro Henrique Moreira Sousa, complementou com a lucidez de quem enxerga o território humano por trás das jazidas: “Falar de minerais críticos é falar de dignidade, de redistribuição e de justiça.”

E o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Raul Jungmann, acrescentou o tom geopolítico que paira sobre todos: “Vivemos tempos de desordem mundial. O Brasil não pode se contentar em ser exportador de recursos brutos; precisa ser protagonista de soluções.”

Enquanto essas vozes ecoam pelos corredores da COP30, o Brasil se reconhece em cada espelho.

Nas águas do Guamá, nas ruas quentes de Belém, nos painéis internacionais que o aplaudem e o cobram.

O país é vitrine e advertência: exemplo possível e risco iminente. Belém, neste instante, é o coração do planeta. Aqui, as decisões deixaram de ser teoria — tornaram-se questão de sobrevivência.

E o mundo observa, entre esperança e desconfiança, o gesto do Brasil. Porque o país que guarda a Amazônia não pode mais ser espectador. Ele precisa ser autor.

O planeta não negocia prazos

A COP30 segue em Belém, e o mundo observa. Os discursos se sucedem, as declarações se multiplicam, mas o relógio do planeta corre em outro ritmo — o da urgência.

As florestas não esperam consensos, os rios não conhecem adiamentos, e o clima já não aceita notas de rodapé.

Três anos. Entre Dubai, Baku e Belém, o mundo amadureceu na forma, mas a natureza amadureceu na fúria.

O que começou no deserto como promessa de transição tornou-se agora uma corrida contra o tempo. E, se o deserto simbolizava o calor que vem de dentro, a Amazônia revela o calor que vem de todos os lados

Belém é, neste instante, a linha tênue entre a esperança e o colapso. Aqui, cada decisão é um gesto de salvação ou de adiamento, e cada adiamento é uma sentença.

O Brasil, anfitrião e espelho, carrega a tarefa de provar que desenvolvimento e preservação não são opostos, mas capítulos de uma mesma história.

E essa história está sendo escrita agora — nas mesas de negociação, nas salas de imprensa, nos olhos dos superficiários e das comunidades tradicionais que vivem da floresta e da terra.

Mas, enquanto o mundo se reúne no Norte, o Sul do Brasil ainda recolhe os destroços do tornado que devastou o Paraná dias antes da conferência.

O fenômeno, inédito em força e proporção, arrancou telhados, árvores e certezas.

Foi como se o próprio clima tivesse decidido discursar antes da abertura oficial — em ventos, não em palavras.

Enquanto delegações desembarcavam em Belém para discutir metas de neutralidade de carbono, o país via, em Rio Bonito do Iguaçu, a face concreta da emergência que insiste em ser tratada como teoria.

Não foi coincidência: foi prelúdio.

O tornado foi o aviso que não coube nas atas.

Enquanto isso, o planeta reage.

Chove onde nunca chovia, seca onde sempre houve rio.

O vento sopra como denúncia.

O fogo, como cobrança.

E o silêncio que se segue às tragédias é o mesmo silêncio que antecede o juízo.

O tempo das promessas terminou.

O que se espera agora é o tempo da coerência — o único capaz de reconciliar o homem com a Terra.

A verdadeira transição não é apenas energética, é moral.

É a passagem de uma humanidade que consome para uma humanidade que conserva, que substitui o verbo explorar pelo verbo regenerar.

A Amazônia, onde o mundo agora se reúne, não é cenário. É sentença.

Ela dita o veredito de uma era que se esgota e de outra que ainda tenta nascer.

E, enquanto o planeta ferve, talvez o maior desafio não seja salvar a Terra — mas reaprender a merecê-la.

Porque o planeta não negocia prazos.

E a humanidade já gastou quase todos os seus.

Referências bibliográficas

MM ADVOCACIA MINERÁRIA. Que calor! Que frio!. Cidades & Minerais, 2023. Disponível em: https://cidadeseminerais.com.br/colunas/que-calor-que-frio/. Acesso em: 11 nov. 2025.

MM ADVOCACIA MINERÁRIA. Dubai. Cidades & Minerais, 2023. Disponível em: https://cidadeseminerais.com.br/colunas/dubai/. Acesso em: 11 nov. 2025.

MM ADVOCACIA MINERÁRIA. O que escavamos hoje, levaremos à COP30: entre mineração, ética e destino. Cidades & Minerais, 2025. Disponível em: https://cidadeseminerais.com.br/colunas/o-que-escavamos-hoje-levaremos-a-cop30-entre-mineracao-etica-e-destino/. Acesso em: 11 nov. 2025.

CONVENÇÃO-QUADRO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MUDANÇA DO CLIMA (UNFCCC). Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – COP29: Azerbaijão 2024. Bonn: UNFCCC, 2024. Disponível em: https://unfccc.int/news/cop29-un-climate-conference-agrees-to-triple-finance-to-developing-countries-protecting-lives-and. Acesso em: 11 nov. 2025.

CONVENÇÃO-QUADRO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MUDANÇA DO CLIMA (UNFCCC). Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – COP30: Belém, Brasil, 2025. Bonn: UNFCCC, 2025. Disponível em: https://unfccc.int/cop30. Acesso em: 11 nov. 2025.

GOVERNO DO BRASIL. Socorro a caminho do Paraná após tornado. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, Brasília, 8 nov. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mdr/pt-br/noticias/socorro-a-caminho-do-parana-apos-tornado. Acesso em: 11 nov. 2025.

NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Eventos climáticos extremos: o impacto do aquecimento global no Brasil. São Paulo, 2024. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente. Acesso em: 11 nov. 2025.

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Mariana Santos e Márcia Itaborahy

MM Advocacia Minerária

 

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