Às vésperas do fim do governo, vice-governador fala em planejamento para cidades mineradas

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O governo de Romeu Zema está há oito anos à frente do Estado, mas somente no fim do segundo mandato passou a tratar publicamente da necessidade de um plano estruturado para as cidades mineradas.

Desde a tragédia de Brumadinho até episódios mais recentes envolvendo a Vale em Congonhas e Ouro Preto, a postura do governo estadual foi marcada pela ausência de ações efetivas capazes de amparar a população e reduzir a insegurança em torno das barragens, que seguem sendo motivo de apreensão para milhares de moradores de regiões dependentes da mineração.

Esse movimento tardio reforça a percepção de que o discurso atual tem caráter mais político do que técnico, em um contexto de pré-campanha para as eleições de 2026, nas quais o vice-governador Mateus Simões (PSD) já se apresenta como pré-candidato ao governo de Minas Gerais.

A recente fala do vice-governador de Minas Gerais ao portal DeFato Online, sobre a necessidade de planejamento para o futuro das cidades mineradoras causou mais estranhamento do que alívio em municípios como Itabira e no eixo do Médio Piracicaba até a Serra do Espinhaço. O motivo é simples: o problema apontado por ele não é novo, e tampouco surgiu agora.

Pelo contrário! Trata-se de uma realidade conhecida há décadas, ignorada por sucessivas gestões estaduais, inclusive pela atual, que só passa a vocalizar o tema em um momento politicamente conveniente.

Um problema antigo das cidades mineradas tratado como novidade

Ao afirmar que minas como as de Itabira ainda teriam entre 10, 15 ou 20 anos de produção e que isso exigiria planejamento para evitar um colapso social, o vice-governador parece apresentar como alerta algo que sempre foi de conhecimento público.

Desde o início da exploração mineral no século passado, era evidente que as jazidas tinham prazo de validade. Ainda assim, o Estado nunca estruturou políticas sólidas de diversificação econômica, formação profissional ou requalificação urbana para essas regiões.

O resultado é um modelo de dependência extrema, no qual cidades inteiras permanecem reféns de uma única atividade, sem alternativas reais quando o ciclo produtivo se encerrar.

Presença do Estado só no discurso

É preciso destacar que a região do Médio Piracicaba até a Serra do Espinhaço, onde estão alguns dos maiores projetos minerários do país, ainda carece de maior presença efetiva do Estado.

Na prática, o que se vê são hospitais sobrecarregados, sistemas públicos de saúde operando no limite, estradas deterioradas e infraestrutura urbana incapaz de acompanhar o ritmo da atividade econômica.

A rodovia entre Itabira e Conceição do Mato Dentro, eixo estratégico para dois dos maiores projetos minerários de Minas Gerais, continua em condições precárias, sem obras estruturantes, mesmo após anos de arrecadação recorde e discursos sobre desenvolvimento.

Riqueza privada, passivo público

A mineração gera bilhões, movimenta a balança comercial e sustenta parte significativa do PIB mineiro. Mas os municípios minerados continuam arcando sozinhos com os custos sociais do modelo: crescimento populacional desordenado, pressão sobre serviços públicos, aumento da desigualdade e ausência de políticas de longo prazo.

O apoio estadual, quando existe, é pontual, reativo e quase sempre tardio. Falta planejamento regional, integração entre municípios e investimentos estruturais que deixem algum legado para além dos buracos no solo.

Um discurso reciclado em ano estratégico

Em Itabira, ouvir que é preciso “começar a se organizar” soa quase ofensivo. A cidade escuta esse discurso há quase um século, enquanto o Estado se limita a administrar emergências, sem nunca enfrentar a raiz do problema.

A sensação entre moradores e gestores locais é de que o governo estadual apenas redescobriu as cidades mineradas agora, em um ano eleitoral, quando o tema ganha valor político e visibilidade pública.

O que Mateus Simões apresenta como preocupação humana não passa, para muitos, de um discurso tardio, que tenta capitalizar politicamente um problema histórico que sempre esteve diante dos olhos do poder público — e que, até hoje, segue sem solução concreta.

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