Um levantamento realizado na região do Médio Tapajós, no Pará, acendeu um novo alerta sobre os impactos da contaminação por mercúrio em comunidades indígenas da Amazônia. Resultados preliminares de uma pesquisa que acompanha mães e recém-nascidos revelam níveis preocupantes do metal no organismo das gestantes, muito acima dos parâmetros considerados seguros para a saúde humana.
O estudo identificou que praticamente todas as mulheres analisadas apresentam concentrações elevadas da substância. Em média, os índices encontrados superam em mais de quatro vezes o limite recomendado internacionalmente, evidenciando a gravidade da exposição contínua em áreas afetadas pela atividade garimpeira.
Mercúrio também é detectado em recém-nascidos na Amazônia
A investigação acompanha 195 mulheres indígenas da Terra Indígena Munduruku. Os dados apontam que 97% delas possuem níveis acima do patamar considerado seguro. Em uma das situações registradas pelos pesquisadores, a concentração encontrada chegou a quase 40 microgramas por grama de cabelo, valor equivalente a cerca de 20 vezes o máximo recomendado.
O monitoramento também inclui os filhos dessas mulheres. Entre as 134 participantes que já deram à luz, os pesquisadores observaram que a contaminação é transmitida durante a gestação por meio da placenta.
Os resultados indicam que aproximadamente nove em cada dez bebês já nascem expostos ao metal. A média encontrada entre as crianças supera em quase três vezes o limite de segurança. Em um dos casos analisados, o índice alcançou mais de 30 microgramas por grama, configurando um dos registros mais elevados observados durante a pesquisa.
Os dados foram apresentados pelo pesquisador Paulo Basta durante a Rio Nature & Climate Week, evento voltado às discussões ambientais e climáticas realizado no Rio de Janeiro.
Garimpo amplia impactos ambientais e sociais na região
Além dos efeitos sobre a saúde das populações tradicionais, especialistas alertam que a expansão do garimpo em áreas sensíveis da Amazônia gera uma série de consequências socioambientais. Entre elas estão o avanço do desmatamento, conflitos territoriais, episódios de violência, exploração irregular de trabalhadores e perdas de arrecadação para os cofres públicos.
Outro estudo divulgado recentemente aponta que mecanismos de autorização utilizados na atividade garimpeira têm sido empregados para facilitar a comercialização de ouro extraído de forma irregular. Segundo os pesquisadores, esse modelo reduz o controle sobre a origem do minério e dificulta a fiscalização em áreas protegidas e territórios indígenas.
Embora a extração clandestina seja frequentemente associada aos maiores danos ambientais, análises especializadas destacam que os desafios não estão restritos às operações ilegais. A atividade garimpeira possui regulamentação específica no Brasil e continua sendo alvo de debates sobre fiscalização, controle ambiental e proteção das comunidades impactadas.
Os resultados do estudo reforçam a preocupação de pesquisadores e organizações sobre os riscos da exposição contínua ao mercúrio, especialmente durante a gestação, período em que o desenvolvimento infantil pode ser diretamente afetado pela presença do metal no organismo materno.


