O avanço da inteligência artificial está mudando a forma como a mineração enxerga a segurança operacional. A discussão ganhou destaque durante a Exposibram 2026, em um painel que reuniu representantes da Mineração Usiminas, Anglo American, Forwood Safety, Honeywell Technologies e Vale para discutir como dados e ferramentas digitais podem ajudar a identificar riscos antes que eles se transformem em acidentes.
A proposta, porém, está longe de simplesmente colocar mais tecnologia dentro das operações. O debate mostrou que existe um risco no caminho inverso: empresas podem acumular sistemas, indicadores e alertas e, ainda assim, não conseguir enxergar aquilo que realmente ameaça os trabalhadores.
Inteligência artificial pode antecipar riscos, mas não substitui quem está na operação
Um dos principais pontos levantados no encontro foi a necessidade de abandonar uma visão de segurança baseada exclusivamente no passado. Investigar um acidente continua sendo importante, mas os especialistas defenderam que também é preciso estudar as situações em que um problema foi percebido a tempo e uma ocorrência acabou evitada.
Essa mudança pode transformar a maneira como as empresas aprendem com suas operações. Uma falha identificada em um controle crítico, por exemplo, pode revelar uma vulnerabilidade existente em diferentes unidades e permitir que uma solução seja aplicada antes que o mesmo problema atinja outros trabalhadores.
A participação de quem está na linha de frente também apareceu como elemento decisivo. O profissional que executa uma tarefa diariamente pode perceber alterações que ainda não aparecem nos indicadores, como uma vibração incomum, um ruído diferente ou uma mudança no comportamento de determinado equipamento.
É justamente nesse ponto que a inteligência artificial pode ganhar força. Ao combinar informações de manutenção, treinamentos, equipes, mudanças operacionais, controles críticos e registros de campo, os sistemas podem encontrar relações que passariam despercebidas quando cada informação é analisada separadamente.
Os participantes chamaram atenção para o chamado “efeito melancia”. Uma operação pode apresentar indicadores verdes e transmitir uma impressão de normalidade, enquanto problemas importantes permanecem escondidos. Poucos registros, por exemplo, não significam necessariamente que uma área esteja livre de riscos. Pode ser que os problemas simplesmente não estejam sendo identificados ou comunicados.
Outro alerta envolve a própria inteligência artificial. Uma ferramenta pode encontrar uma correlação estatística entre dois acontecimentos sem que um seja responsável pelo outro. O exemplo citado no painel envolvendo fases da Lua mostrou como um algoritmo pode encontrar uma associação matemática que não possui utilidade prática para a segurança.
O excesso de sistemas pode criar uma nova ameaça à segurança
Outro ponto que provocou atenção foi a quantidade de plataformas utilizadas atualmente para administrar diferentes aspectos da segurança. Sistemas de permissões, controles críticos, gerenciamento de mudanças, barreiras e outros mecanismos podem acabar funcionando de maneira isolada.
O resultado pode ser uma operação cada vez mais digital, mas também cada vez mais burocrática.
Na prática, existe o risco de o trabalhador passar a preencher registros apenas para cumprir uma exigência corporativa, sem perceber como aquela informação contribui para controlar um risco real. Nesse cenário, cumprir um procedimento não significa necessariamente que o perigo esteja sob controle.
A proposta defendida no painel foi simplificar a experiência de quem executa a atividade. Em vez de obrigar o trabalhador a procurar informações em documentos extensos, a inteligência artificial poderia apresentar somente aquilo que é necessário para determinada tarefa, considerando procedimentos, riscos, histórico e controles aplicáveis.
Em uma aplicação ainda mais avançada, uma imagem do ambiente poderia ser utilizada para auxiliar na identificação de possíveis riscos e indicar quais cuidados deveriam ser considerados antes do início do trabalho.
O objetivo, portanto, não seria criar mais uma plataforma, mas fazer com que a tecnologia reduza a complexidade.
A inteligência artificial também poderá ajudar na capacitação de profissionais. Procedimentos técnicos extensos podem ser convertidos em orientações mais simples, vídeos, simulações ou conteúdos acessíveis diretamente no local da atividade.
Ainda assim, os especialistas reforçaram que nenhuma ferramenta elimina a necessidade de liderança no campo. Conversar com o trabalhador, observar a atividade e conhecer a realidade da planta continuam sendo fundamentais.
A visão apresentada para os próximos anos combina três elementos: pessoas, processos e tecnologia. A IA pode organizar informações, encontrar padrões e indicar onde concentrar atenção. Cabe às pessoas interpretar esses sinais, questionar resultados e tomar decisões.
No fim, a grande transformação proposta não é fazer a mineração produzir mais dados. É fazer com que os dados ajudem alguém a tomar uma decisão melhor antes que o acidente aconteça.


