O Brasil vive uma crescente disputa internacional por suas reservas de terras raras, minerais considerados estratégicos para a produção de tecnologias, equipamentos ligados à transição energética e sistemas de defesa. Um dos dados que mais chama atenção nesse cenário é a participação de empresas estrangeiras: 42% dos 2.727 requerimentos minerários registrados até junho de 2026 estavam ligados a companhias de fora do país ou a subsidiárias de grupos internacionais.
O levantamento realizado pela Repórter Brasil em parceria com a Associated Press mostra que Austrália, Estados Unidos e Canadá estão entre os países com maior presença nesse movimento. Embora empresas de capital estrangeiro representem 12% dos titulares dos pedidos, elas concentram quase metade dos requerimentos analisados.
Terras raras despertam interesse de empresas estrangeiras
A presença internacional também aparece entre os empreendimentos em estágio mais avançado. Dos 45 projetos considerados próximos da fase comercial ou já em operação, 31 estão sob controle de companhias ligadas ao capital estrangeiro.
Esse avanço ganhou força depois que a China restringiu, em 2025, as exportações de terras raras para os Estados Unidos. A medida aumentou a busca norte-americana por novas fontes de fornecimento e colocou o Brasil em uma posição estratégica na cadeia global desses minerais.
Em Goiás, a Serra Verde se tornou um dos principais exemplos dessa movimentação. Única produtora comercial de terras raras do Brasil, a empresa foi adquirida pela norte-americana USA Rare Earth por aproximadamente US$ 2,8 bilhões. O projeto também recebeu financiamento público dos Estados Unidos.
A disputa, portanto, não envolve apenas a exploração das reservas brasileiras. O domínio das etapas de processamento e das tecnologias capazes de transformar os minerais em produtos de maior valor agregado também está no centro da competição internacional.
Expansão dos projetos aumenta preocupação ambiental
O avanço dos requerimentos ocorre em paralelo a questionamentos sobre os possíveis impactos da mineração. Segundo o levantamento, 25% dos pedidos estão sobrepostos a unidades de conservação ou territórios de comunidades tradicionais, ou localizados em uma distância de até 10 quilômetros dessas áreas.
A estimativa indica que até 283 áreas protegidas podem ser afetadas pelos processos, entre terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação.
Com o aumento da demanda mundial, o Brasil terá de decidir como pretende aproveitar sua posição privilegiada. Além de ampliar a produção mineral, o país enfrenta o desafio de desenvolver capacidade própria de processamento e tecnologia, agregando valor aos recursos extraídos em território nacional.
A discussão também envolve os impactos sociais e ambientais da atividade. O objetivo, segundo a perspectiva apresentada pelo cenário atual, é evitar que o país permaneça restrito à exportação de matéria-prima enquanto concentra em seu território os efeitos da exploração.


