Mais de 40 dias após a visita de um grupo de investidores chineses a Conceição de do Araguaia, no Pará, ainda não há confirmação sobre a compra da Horizonte Minerals ou de seus ativos no Brasil. A movimentação, que no início de julho reacendeu a expectativa de retomada do Projeto Araguaia Níquel, não resultou até agora em anúncio público sobre a conclusão de qualquer negociação.
Os investidores estiveram no município para conhecer as instalações do empreendimento e avaliar uma possível aquisição. Na ocasião, o ex-prefeito Jair Martins afirmou que o grupo realizava levantamentos sobre o projeto e demonstrou otimismo com uma eventual retomada das obras. Passadas mais de seis semanas, entretanto, nenhuma formalização de acordo foi divulgada.
Dívida bilionária desafia eventual comprador
A situação financeira da operação brasileira dimensiona o desafio para um eventual interessado no projeto. A Araguaia Níquel Metais, subsidiária brasileira controlada indiretamente pela Horizonte Minerals Plc, apresentou, em janeiro de 2025, um novo plano de recuperação extrajudicial à 2ª Vara Empresarial de Belo Horizonte. No documento, a própria empresa reconhece que a reestruturação e a conclusão do Projeto Araguaia dependem da obtenção de novas fontes de financiamento.
Os créditos quirografários incluídos no plano, aqueles sem garantia real, somavam R$ 2,263 bilhões. Outros R$ 27,034 milhões correspondiam a créditos de microempresas e empresas de pequeno porte. Os valores consideravam juros, correção monetária e demais encargos aplicáveis na data de apresentação do documento.
Para os créditos quirografários, o plano previa inicialmente o pagamento equivalente a 5% de determinados créditos e a quitação do saldo restante, corrigido pela Taxa Referencial (TR), em parcela prevista para 31 de dezembro de 2060. Já os credores classificados como microempresas e empresas de pequeno porte tinham previsão de receber integralmente os respectivos valores até junho de 2025, sem juros ou atualização monetária.
Crise levou controladora à administração no Reino Unido
A crise da operação brasileira está diretamente ligada às dificuldades financeiras da controladora. A Horizonte Minerals Plc entrou em administração no Reino Unido em maio de 2024. Antes disso, a companhia havia informado que não conseguiu levantar todo o financiamento necessário para concluir o Projeto Araguaia nem encontrar, naquele momento, um grupo disposto a adquirir o empreendimento.
Entre as alternativas avaliadas estavam a venda do projeto, a entrada de novos recursos diretamente na subsidiária brasileira e até a liquidação de ativos.
As dificuldades começaram a se intensificar no segundo semestre de 2023, quando a Horizonte identificou que precisaria de um volume de capital muito superior ao inicialmente previsto para concluir a construção. Sem conseguir assegurar os recursos adicionais, o empreendimento acabou paralisado.
Paralisação atingiu economia de Conceição do Araguaia
A interrupção das obras teve reflexos diretos em Conceição do Araguaia. Durante a fase de construção, o empreendimento atraiu trabalhadores e ampliou a movimentação de hotéis, imóveis, restaurantes, comércio e prestadores de serviços. Com a redução das atividades, houve desmobilização de trabalhadores e perda de parte do movimento econômico gerado pelo projeto.
A dimensão do Araguaia Níquel ajuda a explicar a expectativa em torno de uma possível retomada. O projeto foi planejado para produzir inicialmente cerca de 14,5 mil toneladas de níquel por ano, com possibilidade de duplicação da capacidade para aproximadamente 29 mil toneladas anuais em uma segunda etapa. A vida útil originalmente projetada para a mina era de aproximadamente 28 anos.
Ex-CEO da Horizonte volta a investir no Brasil
Enquanto o futuro do Projeto Araguaia permanece sem definição, Jeremy Martin, ex-CEO da Horizonte Minerals, voltou a atuar no setor mineral brasileiro por meio de outro empreendimento.
Martin integra a Prospectiva Resources como presidente executivo. A companhia está em processo de combinação com a canadense Pentagon I Capital Corp., listada na TSX Venture Exchange, em uma operação que prevê a formação de uma empresa de exploração mineral voltada a projetos de cobre e ouro no Nordeste do Brasil.
O principal ativo da Prospectiva é o Projeto Borborema, localizado entre Pernambuco e Paraíba. O empreendimento reúne 35 licenças de exploração mineral, abrangendo aproximadamente 530 quilômetros quadrados, e tem como foco pesquisas para cobre e ouro.
Enquanto o antigo executivo inicia uma nova etapa no setor mineral brasileiro, o Araguaia Níquel continua à espera de uma solução financeira. A visita dos investidores chineses reacendeu expectativas em Conceição do Araguaia, mas, até o momento, não há confirmação pública de aquisição dos ativos nem definição de um cronograma para a retomada das obras.


