A ArcelorMittal Brasil fechou 2025 no vermelho e escancarou o ambiente cada vez mais pressionado para a siderurgia nacional. Conforme balanço anual divulgado nesta quinta-feira (30), a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 2,2 bilhões, revertendo o lucro de R$ 2,3 bilhões apurado em 2024. O resultado veio acompanhado de retração de 12% no Ebitda consolidado, para R$ 8,1 bilhões, e de queda de 7,2% na receita líquida, que somou R$ 61,8 bilhões.
Além do desempenho financeiro, os números operacionais também mostraram desaceleração em praticamente todas as frentes. A produção de aço caiu 1,3%, encerrando o ano em 15,1 milhões de toneladas, enquanto as vendas recuaram 1,9%, para 14,9 milhões de toneladas — sendo 8,4 milhões destinadas ao mercado interno e 6,4 milhões ao exterior. Na mineração, a retração foi ainda mais expressiva: a produção de minério de ferro despencou 18,3%, para 2,3 milhões de toneladas.
Despesa extraordinária amplia rombo, mas não explica sozinha deterioração
Embora o balanço tenha sido fortemente impactado por um desembolso extraordinário de R$ 2,9 bilhões relacionado ao acordo de arbitragem pela aquisição da Votorantim Siderurgia, a própria companhia admite que o cenário de negócios já vinha comprometido ao longo do ano.
Sem esse efeito não recorrente, o lucro líquido teria sido de aproximadamente R$ 700 milhões — ainda assim muito abaixo do registrado em 2024. O dado evidencia que a piora dos resultados não se restringe ao item contábil, mas reflete um processo mais amplo de compressão de margens em toda a cadeia siderúrgica brasileira.
Segundo a empresa, a maior pressão veio do mercado doméstico. O avanço das importações de aço, sobretudo de origem chinesa, reduziu preços e enfraqueceu a competitividade da indústria instalada no País.
Em 2025, o volume de aço laminado importado cresceu 20,5% em relação ao ano anterior, elevando para 21% a taxa de penetração no mercado brasileiro — índice classificado pelo setor como insustentável. Ao mesmo tempo, o crescimento moderado da economia brasileira limitou a expansão do consumo e impediu a recomposição das margens das siderúrgicas nacionais.
Na prática, a combinação entre demanda doméstica lateralizada e aço estrangeiro mais barato criou um ambiente de disputa comercial agressiva, no qual até empresas líderes passaram a operar com menor rentabilidade.
Tarifa de 50% dos Estados Unidos agrava perda de margem nas exportações
No mercado externo, a situação também se deteriorou. A tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre a importação de aço brasileiro em junho de 2025 atingiu diretamente as operações exportadoras da ArcelorMittal Brasil, principalmente no envio de placas destinadas às unidades do próprio grupo em território norte-americano.
Apesar de a companhia ter conseguido preservar o volume embarcado, a sobretaxa foi absorvida ao longo da cadeia produtiva, reduzindo a margem da operação brasileira em um momento já marcado pela queda dos preços internacionais do aço. O efeito foi uma dupla pressão: perda de rentabilidade nas exportações e dificuldade de compensação no mercado interno.
Na mineração, um movimento estratégico também pesou sobre os resultados de curto prazo. A entrada em operação da nova planta de beneficiamento de pellet feed na mina de Serra Azul, em Itatiaiuçu, exigiu o descomissionamento da estrutura antiga e reduziu temporariamente a produção de minério de ferro ao longo de 2025.
A unidade ainda está em fase de ramp-up e deve alcançar a capacidade nominal apenas nos próximos meses. Até lá, a transição operacional segue impactando os volumes produzidos, ainda que a expectativa da companhia seja de ganhos de eficiência no médio prazo.
Balanço expõe ano de sufoco para a siderurgia brasileira
Mais do que um prejuízo contábil, o resultado da ArcelorMittal Brasil reforça um diagnóstico já consolidado entre as grandes produtoras de aço: 2025 foi um ano de margens espremidas, avanço agressivo do aço importado e aumento das pressões externas sobre a indústria nacional.
Mesmo mantendo a liderança no setor, a companhia encerra o período em um cenário em que proteção comercial, recuperação da demanda interna e reequilíbrio das exportações passam a ser fatores decisivos para a retomada da rentabilidade. O balanço, assim, funciona como termômetro de uma crise mais ampla de competitividade enfrentada pela siderurgia brasileira.


