A valorização do ouro, um dos principais insumos do setor de joias e bijuterias, foi um dos fatores que contribuíram para a estagnação da indústria nacional em 2025. Representantes do setor apontam que, além do cenário internacional, a legislação ambiental aplicada aos pequenos garimpos artesanais também vem impactando diretamente a produção de gemas no País.
Segundo o presidente do Sindicato das Joias, Bijuterias, Folheados e Gemas Mineiras (Sindijoias Ajomig), Murilo Graciano, o problema já se arrasta há cerca de dois anos, impulsionado pela forte valorização do metal precioso nos mercados nacional e internacional.
“Já temos esse problema há uns dois anos, que é o alto valor de um dos principais insumos, o ouro, que teve grande valorização no mercado internacional e no nacional, fazendo com que os preços das joias sentissem os reflexos desta grande alta”.
Valorização do metal chega a 60% em 2025
Ao longo de 2025, o ouro acumulou uma alta de aproximadamente 60%, impulsionada principalmente por tensões geopolíticas e pelo movimento de investidores que veem o metal como um ativo de proteção, considerado um porto seguro em momentos de incerteza econômica.
Esse cenário afetou diretamente fabricantes de joias e semijoias.
Para minimizar os impactos no consumidor final, algumas empresas optaram por não repassar integralmente os aumentos de custos. Foi o caso da Eterniza Alta Bijuteria.
“O ouro teve muitos aumentos em 2025 e, para o nosso público não sentir, a gente não aumentou muito os preços já que as vendas já não estavam boas, mas também não quis baixar a qualidade”, afirmou a proprietária da empresa, Daniela Carneiro.
Daniela pontuou que a decisão resultou em um faturamento semelhante ao registrado em 2024.
Menor teor de ouro surge como alternativa de mercado
Buscando manter o comércio aquecido, parte do setor passou a reduzir o teor de ouro das peças, priorizando joias de 10 e 14 quilates, em vez das tradicionais de 18 quilates, com o objetivo de oferecer produtos mais acessíveis, conforme explica Graciano.
O cenário de dificuldades ao longo de 2025 já era previsto pelo Sindijoias Ajomig. Além dos conflitos internacionais, o sindicato destaca a taxa básica de juros, mantida em 15% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central desde junho, e o ambiente político como fatores que ampliam a insegurança do setor.
“(A taxa) desfavorece o investimento das empresas e uma grande instabilidade política, traz uma grande insegurança aos empresários. Essa instabilidade causa retração no consumo, mas já era previsto”.
O diretor da Ita Gemas, Bruno Coelho, avalia que a Selic elevada e a tarifa imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contribuíram para o arrefecimento do mercado brasileiro, inclusive reduzindo a participação de empresas em feiras internacionais, consideradas estratégicas para a geração de negócios.
“O setor de luxo é muito sensível a mudanças. Qualquer mudança a primeira coisa a ser cortada são artigos de luxo”.
Ele também menciona a redução do poder de compra da classe média chinesa e do Sudeste Asiático, mercados relevantes para o segmento.
Produção de gemas no Brasil entra em queda
Outro fator que agrava o cenário é a redução da produção de gemas no Brasil, país historicamente reconhecido como uma das principais fontes mundiais, segundo Murilo Graciano.
“Temos a questão da baixa produção de gemas no Brasil, que é uma das principais fontes do mundo”.
Para Bruno Coelho, a queda na produção está diretamente ligada à legislação ambiental e mineral, que não diferencia pequenos produtores de grandes empresas de mineração.
“A produção de pedras preciosas tem reduzido por conta da legislação ambiental e mineral. O produtor de pedras preciosas está no mesmo bojo do minério de ferro, manganês, por exemplo, são exigências similares. Só que um é um pequeno minerador e o outro é uma empresa de grande porte. Tanto que muitas empresas brasileiras estão buscando matéria-prima na África”.
Expectativas cautelosas para 2026
Com o encerramento de 2025, o setor projeta cautela para 2026. A avaliação é de que o cenário internacional segue instável e que não há perspectiva de redução significativa no preço do ouro no curto prazo.
“Temos que ser um pouco moderados nas expectativas, por conta de nós não termos ainda, num cenário próximo, uma adequação do valor do metal. A gente vai continuar tendo valor bem alto por questões internacionais, como guerras, disputas de territórios, disputa por terras raras. Para 2026 não temos um cenário positivo, continuamos com uma estagnação para não falar numa retração”, analisou Graciano.
Apesar das incertezas, Daniela Carneiro afirma manter otimismo, embora reconheça os desafios de um ano eleitoral.
“Porque, como boa brasileira, vivo na esperança de que vai melhorar”.
Ela destaca que períodos eleitorais costumam gerar cautela nos consumidores. A diretora da Paixão Joias, Luciana Paixão, acrescenta que a Copa do Mundo também tende a afetar o desempenho do setor.
“Vai ser um ano desafiador, por causa da Copa do Mundo e eleições. Querendo ou não dá uma parada, as pessoas encaram como se fosse uma mini férias”.


