Um estudo realizado pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil) em parceria com o Instituto Conviva revelou que a expectativa de vida de quem atua com garimpo ilegal na região amazônica é de apenas 55 anos, o que representa uma diferença de 21,4 anos em relação à média nacional, hoje estimada em 76,4 anos.
A pesquisa, intitulada Mapeamentos dos impactos da mineração ilegal na Amazônia, traça um panorama preocupante da saúde e segurança de quem atua nessa atividade clandestina. Além da baixa longevidade, o estudo evidencia a ausência total de políticas públicas de saúde e o alto índice de mortes relacionadas a doenças, acidentes e à violência.
Doenças e acidentes tornam o garimpo ilegal um dos trabalhos mais letais do país
Segundo o levantamento, as doenças causadas pelas precárias condições de vida nos garimpos ilegais são a principal causa de morte entre esses trabalhadores. A gota — inflamação nas articulações provocada por altos níveis de ácido úrico no sangue — lidera a lista, com 24% dos óbitos. Em seguida aparecem malária (19%), tuberculose (14%), bronquite (13%), pneumonia (11%), reumatismo (10%) e infecções sexualmente transmissíveis (9%).
A exposição constante a ambientes insalubres, falta de assistência médica e má alimentação agravam ainda mais o quadro. Muitos garimpeiros permanecem meses em acampamentos improvisados, sem acesso a água potável ou saneamento básico.
Riscos da atividade incluem soterramentos, picadas de cobras e até conflitos armados
Além das doenças, os acidentes típicos da atividade são outra grande ameaça. Mortes por afogamento (20%), soterramento (19%), ataques de animais (18%), picadas de cobras (18%), ferroadas de insetos (13%) e picadas de aranha (12%) são recorrentes nos garimpos ilegais, que frequentemente operam sem qualquer estrutura de segurança.
O estudo também aponta a ocorrência de conflitos armados, alcoolismo crônico e intoxicações por mercúrio como fatores adicionais que contribuem para o alto índice de mortalidade. O mercúrio, utilizado para separar o ouro da terra, é altamente tóxico e se acumula no organismo ao longo dos anos, provocando doenças neurológicas, hepáticas e renais.
Expansão acelerada e trabalhadores sem direitos
Entre 2016 e 2022, a atividade de garimpo ilegal na Amazônia cresceu 650%, segundo o relatório. Esse avanço, impulsionado pela alta no preço do ouro e pela fragilidade da fiscalização ambiental no período, intensificou a presença de garimpeiros conhecidos no estudo como os “proletários da lama” — homens e mulheres que atuam na base da cadeia do ouro, em condições análogas à escravidão, sem qualquer tipo de assistência ou direitos trabalhistas.
Apesar de serem peças-chave na produção do ouro ilegal, esses trabalhadores seguem invisíveis para o Estado. A pesquisa reforça que não há acesso à saúde, educação ou segurança nos locais onde o garimpo ilegal avança, muitas vezes em áreas de proteção ambiental ou em terras indígenas.
Um retrato de abandono e urgência
O estudo da Repam-Brasil e do Instituto Conviva lança luz sobre a dimensão humana da mineração ilegal na Amazônia. Para além dos danos ambientais e da destruição de florestas, o relatório mostra que há uma crise silenciosa de saúde pública e direitos humanos em curso na região.
A expectativa é de que os dados sirvam de base para a formulação de políticas públicas e reforcem a necessidade urgente de ações de combate ao garimpo ilegal, que não apenas devasta o bioma amazônico, mas também condena milhares de brasileiros a uma vida curta, perigosa e invisível.


