Ouro movimenta US$ 3,88 bilhões com esquema de licenças irregulares na Amazônia

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A comercialização de ouro associado a autorizações consideradas suspeitas voltou a acender o alerta sobre os desafios enfrentados no combate ao garimpo ilegal na Amazônia. Um levantamento recente revelou que toneladas do metal precioso foram negociadas nos últimos anos com respaldo de permissões minerárias em locais onde não foram identificados indícios de atividade de extração.

A descoberta ocorre em um momento em que o governo federal intensifica ações para conter a exploração clandestina em territórios ambientalmente sensíveis e em áreas ocupadas por povos originários. Desde o início do atual mandato presidencial, a redução do garimpo ilegal figura entre as prioridades das autoridades ambientais e de fiscalização.

Ouro na Amazônia expõe nova estratégia de fraude

De acordo com o estudo, foram analisadas centenas de áreas licenciadas para mineração próximas a reservas ambientais e terras indígenas na região amazônica. Em parte significativa desses locais, os pesquisadores não encontraram evidências compatíveis com operações de extração mineral.

Mesmo sem atividade identificada, essas autorizações teriam sido utilizadas para dar aparência de legalidade à comercialização de aproximadamente 26,8 toneladas de ouro entre 2018 e março de 2026. O volume negociado alcança um valor estimado em US$ 3,88 bilhões.

A valorização histórica do ouro no mercado internacional, impulsionada por incertezas econômicas e conflitos geopolíticos, é apontada como um dos fatores que estimulam a continuidade da prática. Segundo especialistas, grupos envolvidos no garimpo clandestino passaram a utilizar mecanismos mais sofisticados para ocultar a verdadeira origem do minério.

Uma verificação realizada em algumas das áreas autorizadas identificou discrepâncias entre a documentação oficial e a realidade observada em campo. Em determinados pontos onde os registros indicavam produção expressiva, não foram constatadas estruturas ou movimentações relacionadas à mineração.

Fiscalização enfrenta obstáculos na região

A suspeita é de que parte do ouro vinculado a essas permissões tenha sido extraída em áreas protegidas, incluindo territórios indígenas localizados no Pará. Lideranças locais relatam preocupação com os impactos ambientais e sociais provocados pela atividade.

O líder Kayapó Megaron Txucarramãe manifestou indignação diante da permanência do problema. “Não ⁠sei o que mais é necessário para resolver a mineração ilegal em terras indígenas”, disse ele. “Este veneno, a gente não sabe se esse veneno entra no peixe, entra nos animais que vivem na água, a gente não sabe, a gente está pegando peixe para comer e às vezes a gente está comendo veneno”.

Em resposta às denúncias, a Agência Nacional de Mineração informou que acompanha os casos apontados e realiza verificações para identificar possíveis irregularidades. O órgão destacou ainda que a extensão territorial da Amazônia representa um desafio considerável para ações de monitoramento e fiscalização.

Para entidades ambientalistas, o aperfeiçoamento dos mecanismos de rastreabilidade do ouro é considerado fundamental para reduzir fraudes e impedir que material proveniente de áreas proibidas continue chegando ao mercado formal.

“Enquanto for possível lavar ouro usando emissão de lavra garimpeira, vai ter uma expansão da atividade na Amazônia”, disse o porta-voz do Greenpeace Brasil Danicley Aguiar.

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