Enquanto Divinópolis transformou sua força eleitoral em uma presença expressiva nos principais espaços da política mineira, cinco importantes municípios ligados à mineração terminaram as eleições de 2026 sem eleger um representante próprio para a Assembleia Legislativa ou para a Câmara dos Deputados.
O contraste chama atenção porque as cidades mineradoras estão entre as que mais movimentam riqueza no estado. Itabira, São Gonçalo do Rio Abaixo, Conceição do Mato Dentro, Barão de Cocais e Santa Bárbara possuem economias fortemente ligadas à atividade mineral, mas não conseguiram converter esse peso econômico em uma representação política diretamente vinculada aos seus municípios.
Divinópolis, por outro lado, saiu das urnas com uma estrutura política fortalecida. Com cerca de 171 mil eleitores, a cidade elegeu Cleitinho Azevedo para o Governo de Minas, garantiu Domingos Sávio no Senado e levou quatro nomes à Câmara dos Deputados, além de reconduzir Eduardo Azevedo à Assembleia Legislativa.
Divinópolis transforma votos em representação política
A votação de Cleitinho Azevedo ajuda a dimensionar a força eleitoral construída em Divinópolis. O candidato do Republicanos foi eleito governador no primeiro turno com 55,40% dos votos válidos em Minas Gerais, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
A cidade também conseguiu projetar nomes para o Legislativo. Entre os deputados federais eleitos estão Ana Elisa, Gleide Andrade, Gleidson Azevedo e Lohanna. Juntos, os quatro alcançaram uma votação expressiva em todo o estado.
O desempenho ocorre em uma cidade cuja economia tem forte identidade com a indústria da moda. Divinópolis reúne mais de 2.500 empresas ligadas à confecção, produz aproximadamente 19 milhões de peças por ano e movimenta cerca de R$ 600 milhões anuais no segmento. O setor representa até 10% do PIB municipal e movimenta entre 15 mil e 20 mil postos de trabalho diretos e indiretos.
O resultado eleitoral mostra que a força econômica de uma atividade não é, necessariamente, o único fator capaz de produzir representação política. Organização eleitoral, concentração de votos e capacidade de construir lideranças também pesam nesse processo.
Mineração tem peso econômico, mas cidades ficam sem deputado próprio
O cenário é diferente nos municípios onde a mineração ocupa posição central na economia. Em Itabira, por exemplo, Bernardo Mucida foi o candidato a deputado federal mais votado entre os nomes ligados diretamente ao município, com 9.061 votos na cidade. No total do estado, porém, chegou a 16.674 votos e não conquistou uma cadeira.
Na disputa estadual, Luiz Carlos de Ipoema teve 8.326 votos em Itabira, enquanto Danilo Alvarenga recebeu 5.545 e Núbia Citty, 5.280. Mesmo com votações expressivas dentro do município, nenhum deles garantiu uma cadeira diretamente vinculada à cidade.
O caso de Itabira se repete, em diferentes proporções, em outros municípios da região mineradora. São Gonçalo do Rio Abaixo, Conceição do Mato Dentro, Barão de Cocais e Santa Bárbara também não elegeram um deputado estadual ou federal próprio.
O contraste ganha dimensão quando se observa a importância econômica da mineração para Minas Gerais. O setor mineral ocupa posição estratégica na economia estadual, nas exportações e na arrecadação dos municípios produtores. Itabira e São Gonçalo do Rio Abaixo, por exemplo, estão entre os municípios mineiros fortemente beneficiados pela atividade mineral.
A questão que surge após a eleição é justamente essa: como transformar o peso econômico dos municípios mineradores em maior capacidade de articulação política?
A resposta não está apenas no número de eleitores de cada cidade. O sistema proporcional utilizado para eleger deputados faz com que os votos sejam contabilizados dentro da disputa estadual, e a eleição depende também do desempenho dos partidos e federações.
Por isso, uma cidade pode concentrar milhares de votos em um candidato local e, ainda assim, terminar sem um representante eleito.
O resultado de 2026 coloca novamente esse debate no centro das discussões entre os municípios mineradores. Questões como distribuição da CFEM, diversificação econômica, infraestrutura, segurança de barragens, investimentos e planejamento para o período pós-mineração dependem de articulação política em diferentes níveis.
A eleição mostra, portanto, um paradoxo que vai além da comparação entre moda e mineração. Divinópolis conseguiu transformar sua força econômica e eleitoral em uma presença política ampla, enquanto importantes cidades mineradoras continuam enfrentando o desafio de converter riqueza mineral em representação própria.
Fontes consultadas: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para os resultados eleitorais; Prefeitura de Divinópolis e dados do setor de confecção para os indicadores econômicos; e levantamento dos resultados municipais de Itabira


