A proposta de criação do Parque Estadual da Pedra do Cálice voltou a provocar reação nos municípios de Pains, Pimenta e Córrego Fundo. O Projeto de Lei nº 5.724/2026, apresentado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) pelo deputado Rubens Gonçalves de Brito, conhecido como “Bim da Ambulância”, prevê a transformação de uma área de 9.253 hectares em unidade de conservação.
O projeto reacendeu uma discussão que vai muito além da preservação ambiental. No território indicado estão propriedades rurais, áreas de produção, empresas, atividades de mineração, transportadores e diferentes negócios que dependem da movimentação econômica gerada na região.
Um levantamento sobre o mercado de trabalho dos três municípios indica que 5.190 das 7.018 pessoas ocupadas estão nos setores de indústria de transformação, extração mineral, transporte e agropecuária. Isso representa aproximadamente 74% do total considerado na análise.
A possibilidade de novas regras para utilização da área, manejo e expansão de atividades produtivas passou, portanto, a ser uma das principais preocupações de moradores e representantes municipais.
9.253 hectares podem atingir áreas produtivas e empregos
Em Pains, os números chamam atenção. O município possui 3.568 pessoas ocupadas e, desse total, 2.943 trabalham nos quatro segmentos analisados. A indústria de transformação concentra 1.517 trabalhadores, enquanto a agropecuária reúne 929, a extração mineral emprega 312 e o transporte, 185.
Somente indústria, mineração e transporte somam 2.014 trabalhadores, equivalentes a 56,44% do pessoal ocupado no município.
O levantamento também aponta que aproximadamente 8.388 dos 24.729 hectares de área produtiva rural de Pains estariam dentro do perímetro previsto para a unidade de conservação. A proporção chega a 33,91%. Entre as 320 propriedades registradas no Cadastro Ambiental Rural, 268 aparecem como diretamente alcançadas pela área delimitada, o equivalente a 83,75%.
Em Córrego Fundo, 1.371 dos 2.274 trabalhadores estão distribuídos entre indústria de transformação, mineração e transporte. O grupo representa 60,28% do pessoal ocupado. A relevância desses segmentos ganha ainda mais peso em um município cuja atividade econômica possui forte ligação com a cadeia do calcário.
Já Pimenta apresenta uma estrutura mais diversificada. Dos 1.176 trabalhadores do município, 384 estão na indústria de transformação, 22 na mineração, 58 no transporte e 412 na agropecuária. Somados, esses setores concentram 818 trabalhadores, ou 69,55% do pessoal ocupado.
O levantamento estima ainda que cerca de 11,5% da área de pastagens e lavouras de Pimenta poderia ser alcançada pelo perímetro proposto.
Reação dos municípios aumenta pressão sobre projeto
A criação do parque não é uma novidade na ALMG. Uma proposta semelhante havia sido apresentada em 2025 pelo deputado Gil Pereira, mas acabou retirada antes de avançar nas discussões legislativas. Entre os questionamentos levantados estavam justamente possíveis consequências econômicas, sociais e territoriais.
Com a reapresentação da proposta em 2026, os prefeitos das três cidades passaram a se manifestar publicamente contra o projeto.
O prefeito de Pains, Itamar Rafael de Castro, afirmou que a preservação ambiental precisa ser analisada juntamente com os efeitos sobre a economia local.
O prefeito de Córrego Fundo, Danilo Oliveira Campos, também declarou oposição ao projeto e questionou a extensão da área prevista.
O debate agora envolve a identificação detalhada das propriedades e atividades existentes dentro do perímetro. Além das áreas rurais e empreendimentos produtivos, também entram na discussão empresas, empregos, estruturas de transporte, fornecedores, serviços, empreendimentos licenciados e eventuais direitos minerários.
A preocupação manifestada nos municípios é que possíveis limitações não atinjam apenas quem estiver fisicamente dentro dos limites do futuro parque. Mudanças no uso do solo, dificuldades para abertura de novas áreas produtivas ou alterações na circulação e no transporte de cargas poderiam produzir efeitos sobre uma cadeia econômica mais ampla.
O Projeto de Lei nº 5.724/2026 segue em tramitação na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, enquanto a proposta continua provocando mobilização nos três municípios diretamente envolvidos.


