O forte aumento dos custos de transporte marítimo entre Brasil e China tem pressionado as margens das produtoras brasileiras de minério de ferro de menor porte e já provoca cortes de produção no país. A alta do frete ocorre em um momento de preços mais baixos da commodity, ampliando a pressão sobre empresas mais dependentes do mercado à vista.
A Usiminas suspendeu, em 2 de setembro, as operações na unidade de Samambaia, em Minas Gerais. Segundo a companhia, a medida integra uma série de ações adotadas “para lidar com condições externas desafiadoras, incluindo a queda nos preços do minério de ferro e o aumento nos custos de frete marítimo”.
A Itaminas também anunciou medidas para reduzir custos. A mineradora suspenderá, em outubro, as operações de uma planta de processamento úmido e colocará cerca de um terço dos funcionários em licença como forma de preservar o caixa. A empresa, que exporta aproximadamente 90% da produção, informou estar adiantada em relação ao plano de produção e afirmou que a paralisação não deverá comprometer os contratos comerciais.
As taxas de frete avançaram fortemente neste ano em meio às interrupções nos fluxos comerciais provocadas pela guerra no Oriente Médio, à alta dos combustíveis e às condições climáticas adversas no Pacífico, que reduziram a disponibilidade de navios. O aumento da demanda por embarcações destinadas ao transporte de minério de ferro também ampliou a pressão sobre os custos.
“Com os preços do minério de ferro também em queda, os exportadores de menor porte, com proteção contratual limitada, permanecem vulneráveis à pressão sobre as margens e o capital de giro”, afirmou Maria Bertzeletou, analista sênior de mercado do Signal Group.
Na rota C3 Capesize, da Baltic Exchange, entre o Porto de Tubarão, no Brasil, e Qingdao, na China, o frete foi cotado a US$ 42,12 por tonelada em 14 de setembro, próximo dos maiores níveis registrados desde 2021.
Enquanto isso, os contratos futuros de referência do minério de ferro têm sido negociados, em sua maioria, abaixo de US$ 100 por tonelada desde julho. Em maio, a commodity chegou a atingir quase US$ 112 por tonelada.
Segundo Artur Bontempo, sócio da Prime Trading, a combinação entre os custos mais elevados de transporte e a estabilidade relativa do minério reduziu de forma significativa o valor efetivamente recebido pelos produtores brasileiros.
Em termos de preço FOB, “o valor recebido pelos produtores brasileiros caiu mais de US$ 18 por tonelada, embora os preços do minério de ferro tenham se mantido praticamente inalterados”, afirmou.
Bontempo acrescentou que as restrições adotadas por Usiminas e Itaminas indicam uma pressão ainda maior sobre as mineradoras de menor porte localizadas no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais.
O diretor executivo da Itaminas, Thiago Toscano, afirmou que o avanço dos custos de transporte é especialmente oneroso para mineradoras independentes, que não dispõem da mesma estrutura logística das grandes companhias do setor.
Segundo ele, os custos de frete na rota Brasil-China mais que dobraram em relação ao ano anterior e passaram a consumir “uma parcela muito significativa” do valor das exportações, tornando parte das vendas menos atrativa.
Para Daniel Sasson, analista do Itaú BBA, a decisão da Usiminas de interromper entre 30% e 35% da produção de sua operação de mineração representa um primeiro sinal de que a compressão das margens começa a limitar a oferta brasileira de minério de ferro.
O analista estima que as margens das mineradoras brasileiras mais expostas ao frete à vista estejam próximas dos menores níveis dos últimos cinco anos. Na avaliação dele, esse cenário aumenta a possibilidade de recuperação dos preços do minério de ferro, em vez de uma continuidade do movimento de queda.
Segundo maior produtor mundial de minério de ferro, o Brasil também enfrenta um cenário de mudanças estruturais no mercado, diante da perspectiva de redução da demanda da indústria siderúrgica chinesa, principal destino das exportações brasileiras da commodity.


