O Brasil é uma das maiores potências agrícolas do mundo, mas enfrenta uma contradição que pode se tornar estratégica para o futuro do setor. Enquanto o país amplia sua produção de alimentos, ainda depende fortemente do mercado externo para obter os fertilizantes necessários às lavouras. No caso do potássio, a dependência chega a 97%.
O alerta foi feito por Sérgio Leite, presidente da Potássio do Brasil, subsidiária da Brazil Potash responsável pelo Projeto Autazes, no Amazonas. Em entrevista ao Cidades & Minerais durante a Exposibram 2026, o executivo destacou os riscos provocados pela concentração das importações e defendeu a ampliação da produção nacional do insumo.
Mineiro de Belo Horizonte, Leite contou que construiu sua trajetória profissional em áreas como siderurgia, mineração, logística e mercado internacional, com experiências na China, no Oriente Médio e na América Latina. Agora, segundo ele, o retorno ao segmento agrícola também representa uma conexão com a história de sua família.
Potássio revela a vulnerabilidade brasileira diante do mercado externo

De acordo com Sérgio Leite, a dimensão do problema fica ainda mais evidente quando se observa o peso do agronegócio brasileiro no cenário mundial. O país possui uma produção expressiva de grãos, café, carnes, sucos e outras commodities agrícolas, mas precisa recorrer ao exterior para garantir grande parte dos insumos utilizados nessa cadeia.
“Nós somos reconhecidamente uma grande potência mundial em termos de produção de alimentos. Lideramos a produção dos grãos, soja, milho, somos líderes na produção do café, dos sucos e das carnes, então a gente tem uma responsabilidade com a segurança alimentar do mundo, e por incrível que pareça, nós importamos entre oitenta a noventa por cento do fertilizante que a gente precisa, é uma dependência.”
O cenário se torna ainda mais sensível quando o foco é o potássio, um dos principais nutrientes utilizados na agricultura e componente essencial dos fertilizantes. Segundo o executivo, praticamente toda a necessidade brasileira desse insumo é atendida por fornecedores estrangeiros.
“E no caso específico do potássio, isso chega a 97%. Olha que assimetria brutal. Nós produzimos muito no agro, mas não temos o insumo”
Concentração das importações aumenta preocupação
Além da dependência elevada, outro ponto considerado preocupante por Leite é a origem de uma parcela significativa do potássio consumido no país. Segundo ele, aproximadamente metade do produto importado pelo Brasil vem de Rússia, Bielorrússia e Israel.
A concentração em poucos mercados aumenta a exposição brasileira a crises internacionais, conflitos e eventuais alterações nas rotas comerciais. Para um país cuja produção agrícola tem forte peso na economia e no abastecimento mundial, qualquer interrupção relevante pode gerar impactos que ultrapassam o setor mineral.
O presidente da Potássio do Brasil, entretanto, evita classificar o cenário como uma previsão de desabastecimento. Para ele, o termo mais adequado é preocupação diante da vulnerabilidade provocada pela dependência externa.
É nesse contexto que o Projeto Autazes ganha relevância dentro da discussão sobre o futuro do abastecimento de potássio no Brasil. Localizado no Amazonas e desenvolvido pela Potássio do Brasil, o empreendimento busca explorar o mineral e ampliar a participação da produção nacional em uma cadeia considerada fundamental para o agronegócio.
A discussão sobre Autazes, portanto, não envolve apenas a exploração de um recurso mineral. O projeto está inserido em um debate maior sobre autonomia, segurança de abastecimento e capacidade do Brasil de transformar seu potencial mineral em insumos estratégicos para uma das atividades econômicas mais importantes do país.
A entrevista de Sérgio Leite na Exposibram 2026 coloca em evidência justamente esse paradoxo: um país com enorme capacidade de produzir alimentos ainda depende de outros mercados para obter um dos elementos necessários para manter sua agricultura em funcionamento.


