Durante quase um quarto de século, separar a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) da figura de Benjamin Steinbruch era um exercício quase abstrato. Desde 30 de abril de 2002, era ele quem ocupava a presidência executiva de um grupo que, sob seu comando, avançou muito além do aço e consolidou posições relevantes em mineração, cimento, ferrovias, portos e energia.
A partir desta quinta-feira, 3, essa configuração muda
Steinbruch deixa a presidência executiva da CSN e assume a presidência do Conselho de Administração. Para sua cadeira vai Fabio Schvartsman, ex-presidente da Vale e um dos executivos mais conhecidos do ambiente empresarial brasileiro.
A mudança, anunciada nesta quarta-feira, 2, está longe de representar uma saída de Steinbruch da companhia. Pelo contrário. Ele retorna justamente ao posto de presidente do conselho, função que exerceu entre 1995 e 2023, e preserva posição central na definição dos rumos estratégicos do grupo.
O que muda, de fato, é a divisão de poder. Pela primeira vez em 24 anos, a condução cotidiana da CSN será entregue a outro executivo. Em uma empresa historicamente associada à figura de seu controlador, a escolha de um profissional com a trajetória de Schvartsman representa uma mudança relevante na arquitetura de comando.
Schvartsman encontrará uma CSN em plena transformação
Pressionada a reduzir sua alavancagem e simplificar o portfólio, a companhia colocou em marcha neste ano um dos maiores programas de desinvestimento de sua história. O plano apresentado ao mercado prevê levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões com a venda de ativos.
Somente a negociação de uma participação no braço de infraestrutura, que reúne negócios logísticos do grupo, pode colocar entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões no caixa. A CSN Cimentos também está entre os ativos que podem ser negociados.
Mais do que administrar as operações, portanto, o novo presidente assume a companhia em meio a uma tentativa de redesenhar o tamanho, o balanço e as fronteiras do conglomerado construído por Steinbruch ao longo das últimas décadas.
O currículo escolhido para essa missão não é trivial
Antes de chegar à Vale, Schvartsman passou 22 anos pelo Grupo Ultra, onde chegou ao cargo de diretor financeiro. Também comandou a Telemar Participações, a companhia de petróleo e gás San Antonio Internacional e, durante seis anos, presidiu a Klabin.
Quando foi escolhido para comandar a Vale, em 2017, seu nome representava justamente a aposta em um gestor profissional com ampla experiência financeira e operacional. Agora, aos 72 anos, ele retorna à presidência de uma das maiores companhias abertas do país.
A volta à linha de frente empresarial ocorre sete anos depois de sua saída da Vale, na esteira do rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019.
Em abril deste ano, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a reabertura das ações penais contra Schvartsman relacionadas à tragédia, que deixou 270 mortos. O executivo é acusado pelo Ministério Público Federal de homicídio qualificado e crimes ambientais. A decisão do STJ permite o prosseguimento dos processos e não representa condenação.
A escolha cria uma combinação pouco usual na CSN
De um lado, está o empresário que construiu a companhia moderna em torno de sua própria liderança e que, depois de 24 anos, deixa o comando operacional sem abrir mão do controle estratégico. Do outro, um executivo profissional que passou anos distante da presidência de grandes empresas e retorna justamente quando a siderúrgica precisa executar uma transformação delicada, vender ativos, fortalecer o balanço e decidir quais negócios continuarão fazendo parte de seu portfólio.
Steinbruch continuará no andar de cima
Mas, a partir desta quinta-feira, será Schvartsman quem terá de descer todos os dias à sala de máquinas.
Depois de 24 anos, a CSN continuará tendo Benjamin Steinbruch como seu principal controlador e estrategista. Pela primeira vez neste século, porém, terá outro executivo no volante.


