A possível transferência do controle da mina Pela Ema, em Minaçu (GO), para a americana USA Rare Earth entrou no radar do governo federal. O Planalto avalia recorrer à Justiça para tentar impedir ou rever a operação que prevê a aquisição de 100% do Grupo Serra Verde por US$ 2,8 bilhões.
O negócio ganhou dimensão estratégica porque envolve a única mina comercial de terras raras atualmente em operação no Brasil e ocorre em meio à disputa internacional pelo domínio de minerais considerados essenciais para tecnologias de alto valor agregado.
Além do valor bilionário da transação, o envolvimento financeiro dos Estados Unidos aumentou a preocupação brasileira sobre o destino da produção e sobre a possibilidade de o país continuar exportando matéria-prima sem desenvolver internamente as etapas mais sofisticadas da cadeia.
Mina de terras raras recebe forte apoio norte-americano
O interesse dos Estados Unidos pelo empreendimento vai muito além da aquisição de uma operação mineral. O governo norte-americano comprometeu aproximadamente US$ 1,6 bilhão entre aportes, financiamentos e compras futuras relacionadas ao projeto.
Um dos acordos prevê que a produção da primeira fase da mina seja adquirida pelos próximos 15 anos, criando uma relação de longo prazo entre o empreendimento brasileiro e o mercado americano.
A negociação também ocorre após uma aproximação entre Goiás e os Estados Unidos. Em março de 2026, o governador Ronaldo Caiado assinou um memorando com o governo norte-americano envolvendo investimentos, levantamento geológico e prioridade administrativa para projetos relacionados a minerais críticos.
Pouco mais de um mês depois, em 20 de abril, a USA Rare Earth anunciou a compra do Grupo Serra Verde. Entre o memorando e o anúncio da aquisição transcorreram apenas 33 dias.
O documento, porém, não menciona diretamente a venda do grupo. Além disso, o memorando não tem caráter vinculante e não substitui as autorizações que dependem das autoridades federais brasileiras.
Outro ponto relevante é que os recursos minerais existentes no subsolo pertencem à União, independentemente da titularidade das empresas que exploram os depósitos.
Brasil teme perder etapas estratégicas da cadeia de terras raras
A possível mudança de controle da Serra Verde acontece justamente quando o Brasil tenta ampliar sua participação no mercado global de minerais críticos.
A preocupação do governo federal não está apenas na extração do minério em Goiás. O receio é que etapas consideradas mais valiosas, como separação, refino e fabricação de ímãs permanentes, continuem sendo realizadas fora do país.
Essa discussão ganhou espaço no Congresso, que colocou o Marco Legal dos Minerais Críticos entre as prioridades de votação previstas para o período de 31 de agosto a 4 de setembro.
A legislação pode definir novas regras para um setor considerado estratégico diante da crescente demanda mundial por terras raras, utilizadas em equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, sistemas de defesa e tecnologias ligadas à transição energética.
Apesar da movimentação do governo, a operação de US$ 2,8 bilhões ainda está condicionada à aprovação dos acionistas e ao cumprimento das demais exigências previstas no acordo.
O caso coloca Minaçu no centro de uma disputa que ultrapassa os limites de Goiás. De um lado, está o interesse estrangeiro em garantir acesso a minerais considerados estratégicos. Do outro, o governo brasileiro busca evitar que o país permaneça restrito à posição de fornecedor de matéria-prima e defende que uma parcela maior da riqueza gerada pelas terras raras seja produzida dentro do Brasil.


