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Mineração brasileira fatura R$ 150,7 bilhões no primeiro semestre de 2026 e supera expectativas do Ibram

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O setor mineral brasileiro iniciou 2026 com um desempenho que surpreendeu até mesmo os analistas do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). O faturamento alcançou R$ 150,7 bilhões no primeiro semestre, frente aos R$ 139,2 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior. O crescimento de 8,2% contraria a sazonalidade historicamente desfavorável dos primeiros meses do ano.

Os resultados foram apresentados durante coletiva de imprensa realizada pelo Ibram, com detalhamento conduzido pelo presidente da entidade, Pablo Cesário.

“Esse é um resultado realmente surpreendente e curioso, porque o primeiro semestre, em geral, tem mais incidência de chuvas e outros fatores operacionais que limitam, que têm menos impacto. Então é um resultado muito forte”, afirmou o presidente do Ibram durante a apresentação.

Faturamento cresce e setor responde por 48% do saldo comercial brasileiro

O avanço da receita foi acompanhado por um desempenho igualmente expressivo no comércio exterior. O valor das exportações minerais brasileiras cresceu 24% no período, alcançando US$ 25 bilhões, mesmo diante de uma queda de 2,4% no volume físico exportado.

O resultado foi impulsionado pela valorização das commodities, especialmente do ouro e do cobre, que mais do que compensou a redução nas quantidades embarcadas.

As importações minerais também avançaram, registrando alta de 18,99% em valor. Ainda assim, o saldo da balança comercial exclusivamente mineral chegou a R$ 20,3 bilhões, colocando o setor como o principal contribuinte para o superávit comercial do país.

“A mineração é responsável por 48% do saldo da balança comercial brasileira, incluindo todos os produtos”, destacou o presidente do Ibram.

A arrecadação tributária acompanhou o ritmo de crescimento. O setor recolheu R$ 52 bilhões em impostos e contribuições no primeiro semestre, alta de 8,2% em relação ao mesmo intervalo de 2024. Desse total, R$ 3,8 bilhões correspondem à Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem).

Minério de ferro recua, enquanto ouro e cobre avançam

Apesar do cenário positivo, o minério de ferro, ainda a principal commodity do setor mineral brasileiro, apresentou queda de 3,1% no faturamento, mesmo com o aumento da produção física.

Segundo o presidente do Ibram, a retração foi provocada principalmente pela variação negativa dos preços no mercado internacional. O impacto, entretanto, foi amplamente compensado pelo desempenho de outras commodities.

O ouro e o cobre foram os principais protagonistas dessa compensação. O ouro, em particular, vem sendo beneficiado por uma mudança estrutural na forma como bancos centrais de diferentes países constituem suas reservas de valor.

“Há uma tendência de longo prazo de retomada do preço, de aumento do valor, simplesmente porque a oferta não vai conseguir acompanhar a demanda”, analisou o presidente do Ibram.

Cesário acrescentou que as exportações brasileiras do metal precioso estão fortemente concentradas na China, com a maior parte do volume sendo adquirida pelo Banco Central chinês para a formação de reservas.

O cobre, por sua vez, foi apontado como um mineral de demanda crescente e insubstituível no processo de eletrificação global.

“Ele é absolutamente necessário em todo o processo de eletrificação, seja de transporte, de processamento de dados. Se tem um daqueles minérios que realmente acompanhamos num mercado de commodity, é o cobre”, afirmou o presidente do Ibram.

A perspectiva de longo prazo é de pressão contínua sobre os preços, considerando o ritmo de exaustão das minas atualmente em operação e a lentidão na entrada de novas reservas no mercado.

Empregos mantêm trajetória de crescimento

O mercado de trabalho do setor apresentou uma variação positiva, embora moderada, durante o primeiro semestre. Foram criadas 421 novas vagas, elevando para 229.614 o número de postos de emprego direto na mineração.

O total não inclui trabalhadores contratados por empresas prestadoras de serviços à atividade mineral. Segundo o Ibram, a inclusão desses profissionais tornaria o impacto da mineração ainda mais expressivo em toda a cadeia produtiva.

O presidente da entidade destacou que o emprego é um indicador que responde mais lentamente às variações econômicas do que o faturamento.

“O emprego é um indicador de atividade econômica que é mais lento. Primeiro a receita aumenta, depois isso vai sendo acompanhado ao longo do tempo. E da mesma forma, quando a receita diminui, o emprego reage mais devagar”, explicou.

Nos últimos cinco anos, o setor gerou 785 mil novos postos de trabalho, saindo de um patamar mais baixo para alcançar os atuais 229 mil empregos diretos. A trajetória foi descrita como “crescimento relevante e consistente ao longo dos anos.”

Minas Gerais permanece na liderança do emprego mineral brasileiro, concentrando 38,2% das vagas. O estado é seguido pelo Pará, com 34,6%, e pela Bahia, com 5%.

Apesar da liderança mineira no mercado de trabalho, o Ibram projeta que o Pará deverá assumir a primeira posição na produção mineral nacional nos próximos anos, diante da velocidade de expansão da província mineral paraense.

Crise do enxofre acende alerta no setor

Entre as principais preocupações apresentadas pelo Ibram, a crise no abastecimento de enxofre ocupou posição de destaque.

Utilizado como insumo básico na fabricação de ácido sulfúrico, o mineral é fundamental para os setores de fertilizantes, saneamento básico, mineração e indústria química. O preço do produto saiu de uma faixa histórica de US$ 100 por tonelada para atingir US$ 1.200 por tonelada, representando uma alta aproximada de 1.100%.

Segundo o Ibram, o problema não está restrito ao preço, mas envolve também a disponibilidade física do produto.

Boa parte da produção mundial de enxofre é obtida como subproduto do refino de petróleo proveniente do Oriente Médio e de regiões do leste europeu, como o Cazaquistão. Os conflitos armados nessas áreas interromperam cadeias logísticas e destruíram parte da capacidade produtiva.

“Cinquenta por cento do enxofre do mundo passa pelo Estreito de Ormuz. Esse trânsito continua impedido e não se tem ideia de quanto da capacidade de produção de enxofre do mundo foi destruída nos conflitos”, detalhou o presidente do Ibram.

A crise já provoca a interrupção de plantas de ácido sulfúrico no Brasil. Os estoques nacionais foram classificados como “bastante preocupantes”.

“Isso afeta a mineração, não é apenas a agricultura, a indústria química também não funciona sem isso”, alertou o presidente da entidade.

Ibram critica Imposto Seletivo sobre a mineração

Outro ponto de forte crítica apresentado pelo Ibram foi a inclusão da mineração no escopo do Imposto Seletivo, previsto na reforma tributária.

Para a entidade, a medida representa um equívoco conceitual e técnico que pode comprometer a competitividade do setor brasileiro no longo prazo.

“Não existem exemplos no mundo de imposto seletivo que afetam a mineração e o petróleo. Esse imposto, quando criado, tem como objetivo desincentivar o consumo de produtos que tenham externalidades negativas de saúde, de ambiente. E, portanto, incide apenas naqueles produtos destinados diretamente ao consumo”, argumentou o presidente do Ibram.

A crítica também envolve os efeitos práticos da cobrança. Na avaliação do instituto, o Imposto Seletivo aplicado à mineração funcionaria como uma espécie de imposto de exportação disfarçado, provocando cumulatividade tributária — efeito que a própria reforma pretendia eliminar.

“O que o Imposto Seletivo faz, ao incidir na mineração, é criar cumulatividade tributária e destruir ou diminuir a nossa capacidade competitiva”, afirmou.

Para reforçar o argumento, o presidente do Ibram citou o exemplo da Argentina.

“A incidência de um imposto de exportação sobre a pecuária argentina levou à destruição de um dos setores mais competitivos da economia argentina em 30, 40 anos.”

Como a regulamentação das alíquotas ainda está em discussão, o Ibram defende que a cobrança aplicável à mineração seja zerada. Outra possibilidade seria reconhecer diferenciações dentro do próprio minério de ferro, beneficiando, por exemplo, produtos com menor intensidade de carbono.

Decisão sobre terras gera insegurança jurídica

Um terceiro alerta do Ibram envolve o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade da Lei nº 5.709/1971, que restringe a posse de terras por empresas com capital estrangeiro.

O STF considerou a lei constitucional, mas o acórdão ainda não foi publicado na íntegra. A ausência do documento cria uma zona de incerteza jurídica que afeta diretamente as empresas mineradoras.

A atividade mineral depende de grandes extensões territoriais não apenas para a implantação e operação das minas, mas também para projetos de compensação ambiental e social.

“Nossas empresas hoje não têm clareza se os ativos que elas têm, podem manter. E caso elas não tenham, as operações podem ser profundamente impactadas”, afirmou o presidente do Ibram.

A entidade acompanha um projeto de lei em tramitação no Senado que busca equacionar a questão. No entanto, a indefinição já provoca insegurança entre investidores estrangeiros, justamente em um momento em que o Brasil tenta ampliar a atração de capital externo para o setor.

Minerais críticos ampliam importância geopolítica do Brasil

Na pauta legislativa, o Ibram manifestou apoio ao avanço do Projeto de Lei 2.780, que institui uma política nacional para minerais críticos e estratégicos.

A entidade também acompanha com expectativa a tramitação do PL 4.443, de autoria do senador Renan Calheiros e relatado pelo senador Esperidião Amin na Comissão de Assuntos Econômicos. A proposta também está em debate na Comissão de Infraestrutura do Senado.

“O regime que se encontrou é maduro. Há mudanças, ajustes, mas que são ajustes relevantes que precisam ser feitos, e que ele seja aprovado no menor prazo possível”, defendeu Cesário.

O centro da discussão está na composição e nas atribuições do Conselho de Minerais Críticos e Estratégicos previsto nos projetos.

“O grande debate ao redor desse texto é sobre qual é o papel desse conselho e quais poderes ele terá”, resumiu o presidente do Ibram.

Segundo Cesário, uma reunião recente demonstrou um raro consenso entre parlamentares de diferentes campos políticos. Senadores de situação e de oposição concordaram que o tema é prioritário e precisa avançar.

A expectativa é de que a matéria retorne à Comissão de Infraestrutura na semana do dia 10 de agosto.

No cenário geopolítico, o presidente do Ibram defendeu que o Brasil aproveite sua posição de “não alinhamento automático” para liderar um acordo plurilateral de fornecimento de minerais críticos.

“O Brasil tem uma característica de autonomia internacional. Nós somos vistos por todas as grandes potências — americanos, europeus, chineses, japoneses — como confiáveis, ao mesmo tempo”, disse.

Na avaliação do executivo, o Brasil deve exigir, como contrapartida pelo fornecimento seguro de minerais, acesso a tecnologias, mercados previsíveis e mecanismos de cofinanciamento.

“Nós podemos liderar um arranjo global ou pelo menos plurilateral em que haja ganha-ganha”, afirmou.

Investimentos previstos somam US$ 76,9 bilhões

A estimativa de investimentos do setor mineral para o período de 2026 a 2030 permanece em US$ 76,9 bilhões. A projeção é monitorada anualmente pelo Ibram.

Segundo a entidade, a curva de investimentos é crescente e reflete tanto a reorganização das cadeias produtivas globais quanto o avanço da transição energética.

Esse movimento coloca a mineração no centro da demanda por insumos necessários à produção de energias limpas, à eletrificação e ao processamento de dados.

Para sustentar o crescimento, o Ibram identificou como uma das principais fragilidades estruturais do setor a escassez de mecanismos de financiamento adequados às características da atividade mineral.

Atualmente, mais de 130 empresas com operações no Brasil estão listadas em bolsas estrangeiras. Em contrapartida, apenas cinco mineradoras possuem ações negociadas no mercado brasileiro.

A entidade iniciou discussões com o Ministério da Fazenda para criar um instrumento semelhante aos adotados na Austrália e no Canadá. A proposta é permitir que investimentos realizados em pesquisa mineral sejam reconhecidos como despesas dedutíveis no Imposto de Renda.

Em resposta a perguntas de jornalistas, o presidente do Ibram reforçou o alerta sobre a infiltração do crime organizado na mineração ilegal.

Com o ouro negociado em patamares recordes, o incentivo econômico para a atividade ilícita aumentou proporcionalmente. As barcas utilizadas no garimpo ilegal, que custam entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões, passaram a ser financiadas por organizações criminosas.

A presença de armas de alto calibre e a resistência armada durante operações de fiscalização realizadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pela Polícia Federal são apontadas pelo Ibram como evidências concretas dessa infiltração.

“O crime organizado se tornou investidor na mineração ilegal porque ela é muito rentável, mas também porque presta outro serviço: lavagem de dinheiro”, afirmou o presidente do Ibram.

A entidade mantém programas de cooperação com a Polícia Federal e o Ministério Público. Também trabalha em conjunto com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Ministério de Minas e Energia na elaboração de medidas destinadas a estimular a formalização de pequenos garimpeiros que desejam deixar a clandestinidade.

Setor vê crescimento estrutural, mas cobra políticas públicas

O cenário apresentado pelo Ibram aponta para uma trajetória de expansão sustentada, apoiada em fundamentos de longo prazo.

A transição energética global, a reorganização das cadeias industriais, a valorização dos minerais críticos e o potencial ainda pouco explorado de províncias minerais no Pará e no interior da Bahia e de Goiás formam um ambiente favorável ao crescimento da atividade.

A tendência, segundo a entidade, é que a participação da mineração no Produto Interno Bruto, na arrecadação tributária e no saldo comercial brasileiro continue avançando.

Os riscos, entretanto, são reais e urgentes. A aplicação inadequada do Imposto Seletivo, a crise do enxofre, a insegurança jurídica relacionada à posse de terras e o avanço do garimpo ilegal podem comprometer os investimentos e a competitividade do setor.

A mineração chega ao segundo semestre mais forte em números, mas também mais exigente em relação à criação de políticas públicas compatíveis com o papel que já desempenha na economia brasileira.

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