A siderurgia brasileira encerrou 2025 sob forte pressão do avanço das importações, cenário que resultou em perda de margens, paralisação de operações, cortes de investimentos e demissões. O setor inicia 2026 aguardando medidas capazes de reverter um quadro que se prolonga há anos.
Dados do Instituto Aço Brasil indicam que, entre 2021 e 2022, os desembarques de laminados recuaram de 4 milhões de toneladas (Mt) para 3,1 Mt. Desde então, porém, a trajetória voltou a ser de alta. Em 2025, o volume deve alcançar 5,7 Mt, o maior patamar desde 2010, quando somou 5,8 Mt, representando crescimento de 20,5% frente a 2024 (4,8 Mt).
No acumulado de janeiro a novembro de 2025, o Brasil importou 5,4 Mt de aço laminado, avanço interanual de 20,2%. Como reflexo desse movimento, siderúrgicas cancelaram R$ 2,5 bilhões em investimentos no mercado interno, desligaram 5.100 trabalhadores e paralisaram quatro altos-fornos, uma aciaria e cinco usinas semi-integradas (mini mills).
O impacto também foi sentido nos resultados financeiros. O Ebitda trimestral das empresas associadas ao Instituto Aço Brasil caiu 51,7% no terceiro trimestre de 2025 em comparação ao quarto trimestre do ano anterior. Na mesma base de comparação, a margem Ebitda recuou 7,7 pontos percentuais.
Segundo o economista e sócio da iHUB Investimentos, Lucas Sharau, Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) estão entre as mais afetadas pela concorrência externa, uma vez que os aços planos laminados predominam nos desembarques. Já a Gerdau sofre impacto relativamente menor, por ter menor exposição a esse segmento e maior atuação em aços longos.
Gatilhos para a reversão do quadro
Em 2024, o governo federal adotou um mecanismo de cota-tarifa para tentar conter as importações de aço. A política foi renovada em 2025, com a inclusão de novos produtos, e ajudou a mitigar o problema, mas não foi suficiente para solucioná-lo. A manutenção de acordos comerciais, regimes aduaneiros especiais e incentivos fiscais em alguns estados segue facilitando a entrada de produtos importados.
Em diálogo com o governo federal, o Instituto Aço Brasil avalia que o País pode avançar com novas medidas de defesa comercial em 2026. O analista de investimentos da plataforma AGF, Pedro Galdi, afirma que há expectativa de autorização, por volta de fevereiro, para a ampliação das tarifas de importação sobre determinados tipos de aço, especialmente de origem chinesa, o que seria essencial para aliviar a pressão sobre as siderúrgicas.
De acordo com Galdi, também circulam rumores de que a China possa reforçar o controle sobre a exportação de excedentes, o que contribuiria para reduzir a pressão sobre o mercado global. Ele pondera, entretanto, que se trata de um tema complexo, já que o país asiático é o maior produtor mundial de aço e não deve apresentar crescimento econômico robusto no curto prazo, fator que poderia amenizar a situação.
Para Galdi, a recuperação da siderurgia brasileira passa pelo aumento das alíquotas de importação, pela retomada do crescimento da economia nacional e pela continuidade da política tarifária dos Estados Unidos, que intensifica a disputa de mercado e o desvio de comércio. Sharau acrescenta que a expansão da demanda doméstica, medidas de defesa comercial mais efetivas, a redução da taxa de juros — que diminui o custo de capital — e a desvalorização do real frente ao dólar também são fatores determinantes.
Retomada gradual
Caso esses gatilhos se concretizem, a siderurgia tende a retomar contratações e investimentos de forma gradual. “Primeiro, é esperada a reativação da capacidade. Depois, projetos menores. E, posteriormente, um capex maior”, explica Sharau. Segundo o economista, sem a materialização desses fatores ou maior previsibilidade, o setor deve permanecer em posição defensiva, com investimentos represados.
Nesse contexto, Galdi observa que a Gerdau já alertava há anos para os riscos de manutenção de um ambiente adverso provocado pelo aço importado. A empresa, segundo ele, reduziu investimentos no Brasil, fechou unidades e promoveu demissões, refletindo uma estratégia que não se altera de forma imediata.
O analista ressalta ainda que Usiminas e CSN também vêm ajustando seus planos, priorizando a redução de custos. Conforme Galdi, uma mudança mais significativa de estratégia só deve ocorrer após a confirmação da viabilidade da demanda que foi deslocada do mercado brasileiro. “Vale destacar que o aço importado já representa cerca de 25% do aço consumido no País”, conclui.


