O Brasil, que detém a quarta maior reserva de manganês do mundo, enfrenta um grave desafio relacionado ao garimpo ilegal desse mineral, especialmente no sudeste do Pará, onde se encontram as maiores reservas do país. A atividade de garimpeiros ilegais tem se intensificado, com estimativas apontando que cerca de 30% da produção de manganês nacional esteja sob controle de criminosos.
Esse cenário é ainda mais preocupante dado o papel crescente do manganês na indústria global, especialmente para a fabricação de baterias de veículos elétricos.
O impacto do garimpo ilegal na indústria do manganês
A Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, embora sigam investigando o problema, não costumam divulgar dados específicos sobre o impacto do garimpo ilegal. No entanto, fontes do setor estimam que as invasões de garimpeiros estejam comprometendo a segurança das operações e até afetando a produção das mineradoras.
Funcionários de grandes empresas mineradoras revelam que a situação tem se agravado com a falta de fiscalização eficiente. Em uma das maiores mineradoras do setor, por exemplo, cerca de 10% de sua reserva mineral foi extraída por garimpeiros que ocuparam ilegalmente suas terras por vários meses na região de Carajás. Em outro caso, criminosos armados expulsaram vigilantes e assumiram o controle de uma parte significativa da operação.
A própria Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, tem denunciado invasões frequentes em suas propriedades na região. No período de 2012 a 2020, o garimpo ilegal prejudicou o andamento de projetos de manganês da empresa, forçando-a a vender seus direitos minerários e focar sua produção no minério de ferro.
De acordo com a mineradora, sempre que identifica atividades ilegais, ela denuncia às autoridades competentes. No entanto, a Vale tem sido pressionada, inclusive pelo governo federal, a manter suas reservas mesmo sem interesse comercial nelas, o que agrava a situação de falta de controle na área.
O crescente valor do manganês e a ameaça do garimpo
O manganês, tradicionalmente utilizado na produção de aço, está ganhando cada vez mais importância com o crescimento da demanda por veículos elétricos. As baterias desses veículos contêm uma quantidade significativa desse mineral, o que tem levado especialistas a prever um aumento no valor do manganês nos próximos anos.
Atualmente, o preço da tonelada de manganês destinada à siderurgia é de cerca de R$ 300, enquanto a tonelada de sulfato de manganês – utilizado em baterias – pode chegar a US$ 800 (aproximadamente R$ 4.302). No entanto, o garimpo ilegal não contribui para esse valor agregado, já que o mineral extraído de maneira ilegal não passa por processos de refinação ou concentração, limitando sua lucratividade no Brasil.
A logística e o impacto econômico
O processo de extração do manganês por garimpeiros segue uma logística bem definida, com o minério sendo extraído ilegalmente e repassado a transportadores, que o vendem para empresas responsáveis por comercializar o produto internamente ou para o exterior. O porto de Barcarena, no Pará, é um dos principais pontos de exportação do minério extraído de forma ilegal. Em muitos casos, os garimpeiros tentam disfarçar a ilegalidade das operações, alegando que o mineral foi extraído de áreas nas quais possuem direitos minerários.
Ao mesmo tempo, a presença das grandes mineradoras no mercado de manganês tem diminuído. Empresas como a Vale e a Buritirama, que já dominaram a produção, estão reduzindo suas operações ou abandonando a atividade devido a dificuldades econômicas e à exaustão das principais minas. A Buritirama, maior mineradora de manganês da América do Sul, entrou em falência em 2023 e agora é operada por credores. Por sua vez, a Vale vendeu suas operações de manganês no Mato Grosso do Sul para o grupo J&F Investimentos, dos irmãos Batista.
Em 2008, o Brasil chegou a produzir mais de 3 milhões de toneladas de manganês. No entanto, essa produção caiu drasticamente nos últimos anos, com o país produzindo apenas 537 mil toneladas em 2022.
Hoje, as maiores produtoras de manganês no Brasil são a Buritirama e a LHG Mining, dos irmãos Batista, embora a última esteja mais focada na extração de minério de ferro. Outras mineradoras menores ainda operam na região, mas com capacidade limitada.


