sexta-feira, 6 de novembro de 2026
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Jazida no interior do Ceará pode colocar o estado no centro estratégico da mineração brasileira

Projeto Santa Quitéria, no Ceará, reúne fosfato e urânio e pode fortalecer a produção nacional de fertilizantes e a autonomia brasileira na cadeia nuclear

Por Raquel Luciano4 de setembro de 2026 · 10:19Leitura de 3 min
Projeto Santa Quitéria, no Ceará, reúne fosfato e urânio e pode fortalecer a produção nacional de fertilizantes e a autonomia brasileira na cadeia nuclear
Imagem: Divulgação – Projeto Santa Quitéria, no Ceará, reúne fosfato e urânio e pode fortalecer a produção nacional de fertilizantes e a autonomia brasileira na cadeia nuclear

Uma jazida localizada em Santa Quitéria, no interior do Ceará, pode colocar o estado no centro de uma das discussões mais estratégicas da mineração brasileira. O Projeto Santa Quitéria reúne, em uma mesma ocorrência mineral, fosfato e urânio, dois recursos considerados relevantes para setores como agricultura, energia e segurança nacional.

O potencial econômico atribuído ao empreendimento chega a cerca de R$ 120 bilhões em algumas estimativas. Mais do que o valor financeiro, porém, o projeto chama atenção pela possibilidade de ampliar a produção nacional de fertilizantes e, ao mesmo tempo, aumentar a oferta brasileira de matéria-prima para o ciclo do combustível nuclear.

A jazida de Itataia está localizada no município de Santa Quitéria e é explorada por meio de uma parceria entre as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e a Galvani. A INB é responsável pela parcela relacionada ao urânio, enquanto a Galvani atua na cadeia de fosfatos e fertilizantes.

Santa Quitéria concentra dois minerais estratégicos

A particularidade do depósito está justamente na associação entre os dois minerais. De acordo com a INB, o fosfato é predominante na jazida, enquanto o urânio aparece associado às rochas fosfáticas.

Os números divulgados pelas instituições responsáveis pelo projeto mostram a dimensão do empreendimento. A INB informa reservas de aproximadamente 8,9 milhões de toneladas de fosfato e 80 mil toneladas de urânio. Já uma publicação técnica do governo federal divulgada em 2026 aponta recursos de 120.840 toneladas de urânio considerando categorias medidas, indicadas e inferidas, mostrando que os números podem variar conforme a classificação utilizada.

Quando estiver em operação, o Complexo Minero-Industrial de Santa Quitéria deverá produzir aproximadamente 1,05 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados por ano, além de 220 mil toneladas de fosfato bicálcico destinado à nutrição animal.

A previsão também contempla a produção de cerca de 2.300 toneladas anuais de concentrado de urânio. O material deverá ser destinado ao abastecimento das usinas nucleares brasileiras, incluindo Angra 1, Angra 2 e, futuramente, Angra 3.

Urânio e fertilizantes podem reduzir dependência externa

O impacto estratégico do projeto vai além de Santa Quitéria. O fosfato é um insumo fundamental para a fabricação de fertilizantes utilizados pelo agronegócio brasileiro, enquanto o urânio é uma matéria-prima essencial para a geração de energia nuclear.

A própria Agência Nacional de Mineração classifica minerais críticos e estratégicos como recursos essenciais à soberania, à economia, à segurança alimentar e à transição energética, especialmente quando existe risco de dependência externa ou concentração do fornecimento.

Nesse contexto, Santa Quitéria ganha importância nacional. O projeto pode contribuir para ampliar a oferta doméstica de fertilizantes fosfatados e, simultaneamente, fortalecer a autonomia brasileira na cadeia nuclear.

O empreendimento, entretanto, ainda não está em produção. Em 2026, o Projeto Santa Quitéria permanece em processo de licenciamento ambiental, na fase de Licença Prévia junto ao Ibama. Paralelamente, as autoridades responsáveis pela segurança nuclear continuam avaliando os requisitos específicos para a implantação das instalações de beneficiamento de urânio.

Em maio de 2026, a INB destacou avanços tecnológicos no projeto, como a redução estimada de 20% no consumo de água, a eliminação de barragens de rejeitos e a redução de até 50% da área ocupada em comparação com a concepção original.

Se avançar até a fase operacional, Santa Quitéria poderá deixar de ser apenas uma jazida no interior do Ceará para se transformar em um ativo estratégico para duas cadeias consideradas fundamentais para o país: a segurança alimentar e a segurança energética.