Uma pequena panela de aproximadamente 30 litros, um fogão a lenha e a disposição para aprender. Foi assim, há cerca de uma década, que começou a história da Cervejaria Ayres, em Itabira.
O que nasceu como uma experiência caseira entre pai, filho e amigos ganhou escala, conquistou consumidores, transformou-se em empresa e, nos últimos anos, passou a colecionar medalhas em concursos cervejeiros.
Hoje, quem chega à sede da Ayres, no bairro São Pedro, encontra uma estrutura profissional de produção, espaço para eventos, atendimento ao consumidor, delivery de chope e uma marca que começa a buscar novos caminhos para sair das fronteiras de Itabira.
A empresa prepara a expansão das vendas de cervejas em lata por meio do comércio eletrônico, com a intenção de alcançar consumidores de outras regiões do país.
No centro dessa trajetória está o engenheiro civil Pedro Ferraz Ayres, que trocou parte da rotina da construção civil pela produção de cerveja.
Formado pela UFMG, com MBA em negócios da construção civil, Pedro chegou a atuar na área da família, participou de obras e ajudou a construir empreendimentos na cidade. A cervejaria, porém, acabou se tornando seu principal negócio.
A história começou antes de existir uma empresa. “Foi um hobby que a gente adquiriu”, conta Pedro.
Ele e o pai, Sebastião Ayres, começaram a produzir cerveja em casa, acompanhados por dois amigos. As primeiras brassagens eram pequenas. A panela tinha capacidade para cerca de 30 litros — volume que rapidamente se mostrou insuficiente para um grupo que gostava de beber aquilo que produzia.
A produção aumentou. Vieram as panelas de 100 litros e, depois, uma estrutura improvisada no pátio da construtora da família. O antigo fogão a lenha passou a fazer parte do processo. As cervejas eram produzidas, fermentadas e armazenadas com os recursos disponíveis.
Até que começaram a sobrar garrafas. Foi quando surgiu uma oportunidade para testar o produto no mercado.
Um amigo havia aberto o Armazém da Gerais e recebeu algumas das cervejas produzidas pelo grupo. A resposta dos consumidores surpreendeu.
“A gente colocou a cerveja que fazia para vender lá e o pessoal começou a gostar muito. A gente foi vendo aquela aceitação”, lembra Pedro.
A brincadeira começava a adquirir características de negócio. A estrutura cresceu junto com a demanda.
Pedro chegou a manter quase 20 geladeiras na construtora para controlar a fermentação. Depois vieram câmaras frias, barris e equipamentos cada vez mais adequados à produção profissional.
A formação também mudou de patamar. Pedro fez cursos específicos e iniciou uma pós-graduação em Ciência e Tecnologia Cervejeira.
Paralelamente, a família buscou a regularização necessária para transformar a produção artesanal em uma atividade empresarial.
O CNPJ da Cervejaria Ayres foi aberto em 25 de maio de 2017. A empresa permanece ativa em Itabira, com atividade principal de fabricação de cervejas e chopes.
O registro no Ministério da Agricultura veio em 2019, segundo Pedro. Naquele mesmo ano, a Ayres deu um passo importante para apresentar a marca ao público: lançou cinco rótulos em garrafas de 600 ml — Perseguida, Ula Ula, Lúdica, Raparipa e Marreta.
A engenharia por trás da cerveja
A mudança de profissão não significou, para Pedro, abandonar a engenharia. Pelo contrário. A formação técnica passou a fazer parte da maneira como ele enxerga a cerveja.
No próprio site da Ayres, a empresa resume essa filosofia ao falar de um padrão de produção que combina “alma cervejeira” e a precisão associada à formação dos engenheiros.
Para Pedro, a paixão é outro componente fundamental. “Quando a gente faz o que gosta, a gente faz melhor”, afirma.
O resultado dessa combinação entre conhecimento técnico, experimentação e preferência pessoal começou a aparecer nos concursos.
A primeira medalha veio em 2019. A Ula Ula Summer Ale conquistou medalha de bronze na Copa Cerveja Brasil. A premiação abriu uma trajetória que ganhou proporções maiores seis anos depois.
Em 2025, a Marreta Double IPA conquistou o título de Melhor IPA do Brasil no Brazilian International Beer Awards. O concurso reuniu 1.465 amostras de 43 países, avaliadas por 46 jurados de 20 nacionalidades.
A conquista levou a Ayres a organizar o Marreta Fest, evento realizado na própria sede da cervejaria, em Itabira, para celebrar a premiação. A programação contou com música, gastronomia e apresentação do Tianastácia.
A Marreta, segundo a descrição oficial da cervejaria, é uma Double IPA de 7,5% de teor alcoólico e 75 IBU, marcada pela presença de lúpulos cítricos americanos e notas de frutas tropicais. Mas o reconhecimento não parou na cerveja de maior intensidade.
Em 2026, a Perseguida Pilsen recebeu medalha de bronze no Concurso Brasileiro de Cervejas. A bebida alcançou 91 pontos na avaliação dos jurados.
Pedro destaca que a premiação tem significado especial porque a Pilsen é um estilo de características mais delicadas, no qual pequenas falhas podem ser percebidas com facilidade.
A quarta medalha mencionada pelo empresário veio em 2026. A Lúdica APA conquistou medalha de prata no Concurso Mineiro de Cerveja.
A conquista passou a integrar a programação de celebrações da empresa e será destacada no Beer Rock Fest, previsto para outubro na sede da Ayres.
São quatro rótulos premiados em diferentes competições e estilos — da Summer Ale à Double IPA, passando pela Pilsen e pela APA.
Para Pedro, mais do que uma coleção de medalhas, os resultados funcionam como uma confirmação do caminho escolhido.
Uma cerveja para cada paladar
A Ayres não trabalha com apenas um perfil de consumidor. A estratégia da empresa passa justamente pela diversidade de estilos.
A Perseguida, Pilsen puro malte, tem 4,9% de álcool e 10 IBU. É descrita pela cervejaria como uma bebida de corpo leve, coloração dourada, boa carbonatação e equilíbrio entre malte e lúpulo.
A Ula Ula Summer Ale apresenta 5% de álcool e 20 IBU. Os lúpulos americanos trazem notas de frutas tropicais, mas sem um amargor acentuado.
A Lúdica APA, por sua vez, sobe um degrau na intensidade. São 5,3% de álcool e 37 IBU, com maior presença de lúpulo e amargor médio.
A Raparipa IPA tem 6,8% de álcool e 67 IBU. A receita combina lúpulos americanos, alecrim e rapadura, criando um perfil mais complexo. No topo dessa escala está a Marreta Double IPA, com 7,5% de álcool e 75 IBU.
Há ainda a Lupita Porter, cerveja escura de 5,3% de álcool e 25 IBU, produzida com cinco tipos de malte, com aromas e sabores associados a café e cacau.
A De Boinha, Light Lager com baixo teor de glúten e zero carboidratos, completa a linha comercial divulgada recentemente pela cervejaria.
A lógica, explica Pedro, é permitir que o consumidor entre gradualmente no universo das cervejas especiais.
Quem está acostumado às cervejas mais leves pode começar pela Pilsen, experimentar a Summer Ale, avançar para uma APA e, se desejar, chegar às IPAs mais intensas. “É só você não entregar um negócio muito extremo de cara”, resume.
A estratégia é diversificar sem abandonar os produtos mais acessíveis ao consumidor que ainda não está familiarizado com o universo das cervejas artesanais.
Da Kombi ao espaço de eventos
Se os equipamentos representam a profissionalização da Ayres, existe um símbolo que ajuda a contar a história afetiva da empresa: a Kombi.
A ideia nasceu ainda nos primeiros anos, quando a produção era feita nas pequenas panelas e nas geladeiras improvisadas da construtora.
Pedro tinha uma Kombi parada no local. Inspirado por soluções que conhecia de outros cervejeiros, decidiu transformá-la em um ponto móvel de chope.
A estreia ocorreu no Itabeer Fest, evento que reuniu cervejeiros caseiros em Itabira. A Kombi fez sucesso e nunca mais saiu da operação da empresa. Hoje, são três veículos desse tipo. A Kombi pode ser levada para casamentos, festas e outros eventos.
Tornou-se uma espécie de extensão da identidade da Ayres e, nas palavras do próprio Pedro, um “ícone da cidade”. A relação entre cerveja e eventos, aliás, é parte importante do modelo de negócio.
A Ayres trabalha com delivery de chope para pequenos eventos e participa de grandes eventos da região. Na sede, mantém um espaço destinado a encontros e programação cultural.
A empresa também passou a explorar colaborações com artistas. Uma das iniciativas recentes envolve o Tianastácia, com o desenvolvimento de uma cerveja colaborativa que utiliza zimbro e dialoga com o universo da banda e de uma de suas músicas. A proposta amplia a atuação da cervejaria para além da bebida.
Negócio local, ambição nacional
Apesar da intenção de alcançar consumidores de outras regiões, Pedro define a Ayres como uma empresa essencialmente local.
A cervejaria já tem presença em Brasília, mas o caminho é particular. Um primo de Pedro, que mora na capital federal, leva os produtos de Itabira para comercialização.
Mais do que uma relação convencional de distribuição, o empresário descreve a parceria como uma extensão da própria família.
Agora, a estratégia é mudar a escala da distribuição. A instalação de uma linha de envase de latas cria uma possibilidade que a cervejaria não tinha com a mesma facilidade quando dependia principalmente do chope e das garrafas.
A intenção é estruturar um comércio eletrônico capaz de vender diretamente ao consumidor final e enviar os produtos para outras regiões do país.
Em vez de montar uma rede de distribuidores em cada estado, a Ayres pretende concentrar a operação logística e utilizar transportadoras e outros operadores para fazer as entregas.
A lata também amplia as possibilidades de entrada em supermercados e outros pontos de venda.
O movimento representa uma mudança importante: uma cervejaria que nasceu para atender os amigos e depois conquistou o mercado de Itabira começa a construir mecanismos para encontrar consumidores que nunca estiveram na cidade.
A história da Ayres tem uma particularidade: apesar das medalhas e do crescimento, Pedro ainda fala da empresa como algo em construção. Talvez seja influência da engenharia.
O empresário trocou os projetos de prédios por receitas, tanques, lúpulo e levedura. Mas a lógica permanece parecida: testar, corrigir, aperfeiçoar e construir.
A empresa nasceu de uma produção de aproximadamente 30 litros feita para consumo próprio. Passou pelas panelas de 100 litros, pelas quase 20 geladeiras, pela câmara fria, pelo fogão a lenha e pela primeira Kombi.
Chegou aos equipamentos profissionais, aos rótulos em garrafas, às latas, ao comércio eletrônico e às premiações.
O próximo passo é fazer a cerveja produzida em Itabira chegar a mais lugares. “Nosso objetivo é levar as cervejas premiadas da Cervejaria Ayres para cada vez mais pessoas em todo o Brasil”, afirma o empresário.


